Opinião

Da OCDE a Gedeão

O dr. Francisco Miranda Rodrigues, bastonário da Ordem dos Psicólogos, teve a gentileza de me enviar o Relatório sobre Impacto Socioeconómico e Saúde Mental, de seu nome Crise Económica, Pobreza e Desigualdades.

É um belo documento, que desmonta a visão da Saúde Psicológica como orgulhosamente - ia a escrever sós, resquícios de outros tempos - alheia ao contexto social e às suas determinantes socioeconómicas.

De uma penada, lá se vai a ingénua e melíflua teoria segundo a qual estamos todos no mesmo barco nesta crise. Não. Há quem afronte as vagas de iate e quem viaje em traineiras esburacadas, não é preciso ser um génio para adivinhar quais naufragaram ou para lá caminham.

Isolarei - artificialmente! - uma das variáveis - a pobreza. O Relatório cita a OCDE, que afirma "ser Portugal um dos países desenvolvidos onde é mais difícil sair da situação de pobreza - pode demorar até cinco gerações para que as crianças pertencentes a uma família que esteja na base da distribuição de rendimentos consigam um salário médio". (Tal previsão casa bem com a que temos lido nos jornais, só daqui a cem anos falecerá a desigualdade salarial entre homens e mulheres).

Estas crianças têm maior probabilidade de apresentar problemas de comportamento e cognitivos. Mas as carências ultrapassam em muito as mais concretas, da alimentação à habitabilidade. É sublinhado que os pais, assoberbados pelas preocupações inerentes à sobrevivência, estão menos disponíveis para o exercício da parentalidade. Ou seja: a miudagem cresce num contexto de pobreza que inclui a ausência de apoio familiar no desenvolvimento de capacidades de decisão e escolha, aumentando as hipóteses de aproximação a fenómenos e identidades de grupo marginais.

Sempre o verifiquei na clínica. Com todas as felizes excepções, a pobreza, mantida ou deixada para trás, espartilha o imaginário e a expressão das capacidades intelectuais. Torna a vida de muita gente numa espécie de rotunda - e se as há em Portugal! - a que foram roubadas as saídas. O que obriga as pessoas a girar em círculos, como os hamsters da minha juventude.

O meu colega brasileiro Augusto Cury escreveu que o dinheiro em si mesmo não traz felicidade, mas a falta dele pode tirá-la drasticamente. É verdade, costumo dizer que é bom ter o dinheiro suficiente para não sermos obrigados a nele pensar a cada momento. O antigo regime gostava de utilizar a expressão pobrete mas alegrete, numa tentativa de pintar de cores garridas um país que vestia de cinzento carregado. Era e é falso. As lágrimas dos pobres de qualquer etnia, como sublinha o belo poema de Gedeão, são uma mistura de água e cloreto de sódio. Mas com um forte e justificado sabor a tristeza.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Psiquiatra

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