O Jogo ao Vivo

Opinião

Das palavras

O ano passado obrigou a lutos, simbólicos e literais. O que mais custou a digerir foi o da viagem à Provença com os meus netos. Revisitara mapas e livros, órfão de gosto e História de Arte ia-lhes contar Vincent, o homem para lá do fogo de artifício das cores.

Livros... A livraria Ler completou 50 anos, mas olha o futuro apreensiva, permitirá a crise social que as pessoas continuem a comprá-los? Sou testemunha de recordações de quem lhe herdou o leme - os livros apreendidos pela PIDE, o vandalizar das instalações na esperança de matar a cultura pelo cansaço, o filho de Luís Alves Dias resumiu-lhe a vida numa frase - "O meu pai foi um dos últimos livreiros resistentes".

A pandemia trouxe outro tipo de "repressão". Mas em Barcelona livrarias independentes nasceram ou resistiram, diversas hipóteses são avançadas, desde gente que apoia as livrarias do bairro ao cansaço da Netflix e a um serviço personalizado que "substitui um algoritmo que nos diz o que ler a seguir".

Em Paris o cenário é menos promissor. Jérôme Callais, presidente da Associação Cultural dos Livreiros, confessa que as bancas à beira-Sena sobreviveram aos coletes amarelos e à greve dos transportes, mas a pandemia pode liquidá-las. As suas palavras são enternecedoras - "não é um emprego, é uma filosofia de vida... fazemo-lo pelo ar livre, pela liberdade, pelas relações com os clientes habituais e com absolutos estranhos... é uma profissão muito humana".

Os livros afastam a solidão, escreveu Duras. São espelhos e ecos do que nos habita, mas também telas que os autores nos oferecem para juntar aos seus os nossos fantasmas. Geram duetos que vão crescendo, até serem pretexto para um falazar que une multidões.

Não mostrei a Provença aos meus netos, não lhes falei de Vincent e dos demónios que geraram aqueles amarelos incomparáveis. Descoroçoado, alucinei um diário da viagem falhada e ofereci-o aos meliantes, na esperança de os animar a um dia a fazerem.

Surpreenderam-me com prenda natalícia sem rival, leram-no de supetão! Risonhos, debitaram o veredicto - "está fixe, mas tivemos de ir ao dicionário". Sem esquecer a frustração de os não ter ciceroneado, pensei que os empurrara para visitas não guiadas ao mundo das palavras e ao encanto que proporcionam, um léxico enriquecido permite aflorar melhor a essência de mundo e pessoas.

PUB

Mirei-os, acantonados no extremo da mesa para me protegerem, e sorri - a Cultura é a melhor defesa contra as pulsões desumanizantes que o receio do vírus desperta, fiz a deles subir um degrau? Jérôme conversaria comigo? Talvez. Mas dói saber que os agentes culturais portugueses vivem assombrados por palavra que não implica visita ao dicionário - sobrevivência.

Psiquiatra

o autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG