Um psiquiatra no vale

De um dia para o outro

De um dia para o outro

"Observador", 30 de Novembro, prosa de Ana Catarina Peixoto - Em Maio e Julho o Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra debruçou-se sobre os relatos de profissionais de saúde no desempenho de funções e quando infectados. É reconfortante ver António Marques, coordenador do Núcleo de Investigação em Enfermagem, sublinhar o sentimento de missão que os leva a proteger colegas mais frágeis e a amenizar a solidão dos doentes, mas deprimente sabê-los discriminados por vizinhos.

Só em Portugal? Não. O Conselho Internacional dos Enfermeiros declarou em Outubro que 70% dos seus membros se tinham sentido discriminados e dava exemplos: senhorios que não renovavam contratos de arrendamento aos profissionais e a dificuldade para arranjar creches para os filhos ("Jornal Económico", 10 de Outubro, Inês Pinto Miguel). O último ponto foi abordado oficialmente pelo Governo japonês em Abril - "o preconceito e a discriminação contra os filhos dos profissionais de saúde de modo algum podem ser permitidos". Apetece citar Augusto Gil - "mas as crianças, Senhor...?"

Alguns de nós querem os heróis na frente de batalha, mas não nos seus quintais, como dizem os anglo-saxónicos. A admiração à distância é fácil, o medo ao alcance da mão irresistível. Infectados ou não trazem a peste, que vivam em altares, mas não se atrevam a partilhar connosco bancos de igreja ou jardim, porque não lhes chegam aplausos de janelas altas?

JN, Miguel Amorim, Dia da Restauração (?) - O Majestic fechado sem data prevista de reabertura. Praguejei como só um tripeiro em casa vazia sabe fazer. Que faço? Corro Santa Catarina abaixo e vou resgatar ecos da adolescência? As bolas de bilhar caprichosas, os funcionários cúmplices, os jovens machos receosos do julgamento da matilha, se os narizes crescessem ao ritmo das gabarolices exportaríamos Cyranos de Bergerac de vão de escada!

Clamor imediato no Facebook, mas acompanhado de reparo justo; quantos tripeiros, clientes habituais, foram "expulsos" por turistas inocentes e preços culpados? A última vez que lá fui, e com razão levei ralhete de quem sempre me acolheu e mimou, alimentei receio megalómano, "sou o único português na sala?"

Vi com alegria o Porto coleccionar prémios turísticos, tempos houve em que colegas estrangeiros, encantados pelo jantar, incensavam a caminho dos hotéis a beleza austera da Invicta. Mas assumindo o espanto - "onde estão as pessoas?". Isso mudou, antes da pandemia muitas e variadas gentes inundavam ruas, comércio e museus com a sua algaravia. Todos desejamos um equilíbrio que não "exile" portuenses de uma só esquina da cidade. Para lhe salvaguardar a alma? Mil vezes sim! E a sobrevivência económica de muita gente.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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*Psiquiatra

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