Opinião

De véspera

É público que não sou fã dos Dias de..., na sua esmagadora maioria traduzem o desleixo da Humanidade pelos direitos mais básicos. Anseio por outros, em que os "de..." não façam sentido.

Até lá, não os ignoro. Escrever o quê sobre o de amanhã? Admirador confesso do magnífico trabalho da Raquel Marinho na divulgação da poesia em "O poema ensina a cair - Ainda", ladrão despudorado das suas publicações no Face, tropecei neste poema de Miguel-Manso, publicado pela minha querida Relógio d"Água, "Estojo" (Poesia Édita & Inédita), "Pequenos trabalhos de domingo":

"Não saio antes / que tudo esteja pronto / a loiça a escorrer na cozinha / o aspirador cheio / a varanda lavada pelo dia / o rádio em off / nessa hora em que / a noite se aproxima devagar / do meu rosto / escrevo poema nenhum / falta-me língua / sento-me num banco do jardim / mais próximo / onde (perfeição) / nada acontece."

Um homem o escreveu. E contudo são figura e discurso de mulher que se erguem das profundezas do meu inconsciente. "Trabalhos de domingo", "tudo pronto", "loiça", "cozinha", "aspirador" são palavras que me habituei a inserir em quotidianos femininos, num duplo padrão que sobrevive bem melhor do que os discursos politicamente correctos insinuam. De resto, interiorizado por muitas mulheres, minha Mãe, ferrenha defensora da igualdade, pedia, sorridente, aos seus dois homens - "se querem ajudar saiam da cozinha, vocês só servem para estudar!". (E no entanto eu lavava e secava pratos nas casas inglesas que me acolhiam nas férias de Verão...).

Lembro-me de avisar os meus alunos para os riscos subjacentes a expressões como "fada do lar" e "a minha patroa", colocavam as mulheres em altares muito cansativos. Tropeço em estudo alemão, referenciado no Sapo em 2019 por Mariana Leão Costa, e sorrio em tons de amarelo - afinal as mulheres não são mais eficientes do que os homens no multitasking, não desempenham com eficácia mil tarefas ao mesmo tempo, enquanto nós, inferiores mas mais repousados, apenas nos conseguimos focar numa. Lá se foi outra "homenagem envenenada"!

Mas o Dia da Mulher não põe a pandemia em pausa. Fim de Novembro, relatório das Nações Unidas: "O impacto da covid-19 na realização das tarefas domésticas faz-se sentir principalmente nas mulheres. Tarefas como cozinhar, limpar e ir às compras tomam hoje mais tempo e são elas que se lhes dedicam. Passam ainda 31 horas semanais a cuidar das crianças" (JN, Bernarda Santos).

Houve mudanças no equilíbrio doméstico entre os sexos? Sem dúvida. Mas tomemos o fim de tarde da personagem do poema. Sem língua para versejar e ambicionando a perfeição de um jardim onde nada acontece. Tão bela escrita foi obra de homem, mas aquele alívio, exausto e não pacificado, em 2021 ainda tresanda a mulher.

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O autor escreve segundo a antiga ortografia

Psiquiatra

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