Um psiquiatra no vale

Diário de um neurótico

Diário de um neurótico

O Benfica encaixou três golos sem resposta no Bessa. Durante anos o meu comportamento durante os jogos deixou muito a desejar, sobretudo no que ao vernáculo diz respeito.

Depois, envergonhado, passei a calar o bico e a praticar uma espécie de ioga artesanal que funcionou, após as derrotas a tensão arterial e o pulso não disparavam. Mas à noite a frustração tomava conta do meu sistema nervoso e a insónia reinava.

De segunda para terça dormi como um bebé. E no entanto comigo espreguiçou-se um nervoso miudinho que me impelia para a CNN e o número de votantes nos Estados Unidos. Os sintomas não deixavam dúvidas - mais do que os erros defensivos do Benfica preocupava-me o desenlace americano. Os primeiros sinais foram encorajadores, o Ohio mimava Biden. R., bom amigo e "filho adoptivo" do estado, exultou ao telefone e, bom portista, sublinhou que o azul democrata brilhava ao sol da Florida.

Mas as horas foram passando e um vermelho não benfiquista engoliu o mapa e o meu optimismo. Os latinos de Miami festejavam a vitória sobre o "comunista" Biden - o que terá arrepiado o nosso Jerónimo! - e na Pensilvânia a vantagem de Trump chegava aos 600 000 votos. Resignado, busquei refúgio em vale de lençóis.

De manhã, a última inquilina da caixa de Pandora fez a sua aparição - havia esperança!, os democratas votavam aos molhos pelo correio, o azul voltava à boca de cena. Foi o descalabro. Nos dois dias seguintes, entre consultas espreitei o computador, em casa desprezei noticiários, na quinta não vi o jogo do Benfica. (O que me protegeu o miocárdio...) Ouvi Biden apelar à calma com um brilhozinho nos olhos, sabia algo que me era vedado. Quando foi a vez de Trump, dei-lhe o benefício da dúvida, afinal vira apoiantes seus de armas na mão no Arizona, colocaria o país acima do narcisismo? O homem foi de uma coerência assinalável - debitou mentiras, insinuações, lamúrias e raiva, as fronteiras dos Estados Unidos permaneciam as do seu umbigo.

Sleepy Joe, assim baptizado pelo sempre elegante presidente, ganhou, com o recorde de votos da história das presidenciais, uma eleição transformada em referendo sobre Trump, que também aumentou a sua votação. Respiro uma satisfação aliviada, receava mais quatro anos de reality show de um mentiroso compulsivo, messias de uma América ressentida; agressiva; racista. Mas também olhado com esperança por milhões de cidadãos exemplares, cujos problemas devem ser ouvidos e mitigados.

Exausto, confesso que a cereja no topo do bolo é ver uma mulher - e negra... - na Casa Branca e rezo para que as presidenciais portuguesas não titilem assim o meu sistema nervoso. O Benfica? Joga esta noite. E eu receio a visita da insónia......

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O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Psiquiatra

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