Opinião

Do diagnóstico à Pessoa

Do diagnóstico à Pessoa

Um leitor escreve-me, perdido na floresta de diagnósticos atribuídos a Trump - narcisista maligno, psicopata, mentiroso compulsivo, sociopata -, "doutor, afinal...?". Em vez de escolher - ou acumular! - rótulos, proponho uma visita guiada a umas horas da vida do presidente.

Ei-lo que, perante as manifestações, desce ao bunker da Casa Branca. Segue-se a habitual fuga de informação e o escandalizado desmentido - "foi uma simples inspecção". Menos habitual o desmentido do desmentido, por parte do procurador-geral - sim, o presidente refugiara-se no bunker por razões de segurança.

Receoso pela eventual imagem de fraqueza passada ao público em geral e à granítica base de apoio em particular, especialista em reality shows, decidiu mostrar-se ao Mundo como estadista e defensor dos cidadãos e seus valores, materiais e religiosos. Primeiro, no Jardim das Rosas, apresentou-se como o presidente da lei e da ordem e pediu aos governadores dos estados respostas mais duras à situação. Depois, dirigiu-se à igreja de São João, o velho Dylan diria "with God on his side". Mas era preciso retirar do caminho quem gritava "I can"t breathe", pelo que o procurador ordenou o recurso a gás pimenta, granadas de fumo, balas de borracha e polícia a cavalo para dispersar gente apenas armada de voz e indignação.

À porta da Igreja, a filha entregou-lhe o livro sagrado. Uma jornalista perguntou: "É a sua Bíblia, senhor presidente?". Pensei com os meus botões: "Vai mentir com os dentes todos, diz que sim e ainda nos brinda com passagem escolhida por um assessor de imprensa".

Nada disso, com extraordinária candura, o homem mais poderoso do Mundo disse a (sua) verdade - "é uma Bíblia". Não a dele ou "A" Bíblia; uma, igual a tantas outras. Mais um simples adereço na espectáculo, poderia ser uma capa órfã de páginas, há quem as compre para habitar estantes e escolha para as lombadas a cor das paredes circundantes. Uma Bíblia como outra qualquer; uma promessa como outra qualquer; uma pessoa como outra qualquer. De novo Dylan - "we are pawns in his game". Incluindo os militares! Acabo de ver o general mais graduado do país lamentar ter estado presente numa iniciativa claramente política. Simples peões, sim. A serem utilizados por quem vê o Mundo através de um periscópio, pois vive enroscado nas profundezas do próprio umbigo.

Caro leitor, compare esta manipulação sem escrúpulos de objectos e gentes com a visão humanista do Outro contida na mensagem de Tolentino de Mendonça no 10 de Junho. Considere as duas versões do Ser Humano como gavinhas do crescimento de seus filhos. De qual florescerá a colheita que para eles sonhou?

Psiquiatra

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o autor escreve segundo a antiga ortografia

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