Um psiquiatra no vale

Domingo de Ramos

Jesus entrando em Jerusalém e a esperança invadindo as ruas, "Hossana ao filho de David!", gritava a multidão alvoroçada. Uma semana depois a esperança via-se confinada em meia dúzia de corações, para muitos outros agonizara na cruz, até Pedro se debateu com dúvida receosa.

Os ramos agitados pela multidão reenviam-nos para afilhados, padrinhos e madrinhas impedidos de se abraçarem, num rito que jamais imaginaram interrompido e cuja ausência sublinha a traço grosso esta distância que nos massacra. Não sou ingénuo, alguns de nós vão prevaricar, a coberto de variadas mentiras repetidas para os seus botões. Fazem mal, violando as regras porão todos em perigo, a começar pelos mais próximos e queridos. Risco inútil, todos sabemos que, simbolicamente, ramos destes não murcham. Muito menos os afectos que traduzem!, haverá domingos menos sombrios à sua espera ao virar das semanas. E embora não sejam as únicas protagonistas, neste dia "vejo" sobretudo as crianças, flores brotando-lhes das mãos, escoltadas por sorrisos que se alargarão uma semana depois, à vista do folar.

Por todo o lado gente esfaimada, contando os dias que desaguarão num maná de afectos, fora de prazo mas não enferrujados. Pesa-me que tal fome caminhe a par da outra - real; planetária; obscena. As Nações Unidas avisam que mais de 30 milhões de pessoas estão a um passo de morrer de inanição. O objectivo de erradicar a fome até 2030 tornou-se mais uma das miragens que periodicamente são derrotadas pelas areias da falta de solidariedade. Também por cá a pandemia agravou problemas, Isabel Jonet sublinhou-o - "Portugal não escapa a essa realidade dura. A pandemia colocou muitas pessoas em situação de pobreza, com carências alimentares graves, dado que ficaram privadas de rendimento ou remuneração". E de novo as crianças. Porque a fome delas grita um desamparo absoluto e precoce que nenhuma ajuda alimentar resolverá sem outros cuidados, que confortem almas órfãs do sentimento de segurança que permite acreditar no futuro.

Eugénio de Andrade escrevia no seu "Em louvor das crianças", in Rosto Precário, 1979 - "O simples facto de consentirmos que milhões e milhões de crianças padeçam fome, e reguem com as suas lágrimas a terra onde terão de lutar um dia pela justiça e pela liberdade, prova bem que não somos filhos de Deus". Há quase meio século...

Os crentes poderão perguntar-se, acrescentando duas letras - "Já não somos?". Ou, à luz da História e de tanta injustiça, "desiludimo-Lo e nunca fomos?". Mas um agnóstico também não ilude o espelho. Por isso me questiono - fiz na vida o suficiente para ter o direito de albergar esta nostalgia provocada pela Sua ausência?

Não sei.

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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