Opinião

Dos véus

Em artigo no "The Guardian", um vigário negro da Igreja de Inglaterra declarava sentir-se "invisível" no seio da instituição e relatava este episódio: uma senhora pedira-lhe, à porta do templo, para estacionar uma carrinha no parque de estacionamento. Conversa cordial, o sim de um recebera o agradecimento do outro.

No dia seguinte chegara um cartão dirigido ao vigário: "Vim falar consigo ontem e lamento não o ter encontrado, mas um jovem encantador ajudou-me". O "jovem encantador", embora devidamente paramentado, não correspondera à imagem de um prelado da senhora, que o tomara por laico ou personagem secundária na paróquia. "Senti-me um fantasma", concluía ele.

No limite, podemos aventar a hipótese de que não foi a cor da pele mas a juventude a impedir o reconhecimento do seu estatuto. Mas os véus culturais permaneceriam - um deformara a avaliação da senhora; outro, dele, autor de um livro sobre a discriminação na Igreja de Inglaterra, influenciara a sua interpretação do episódio.

Nos últimos meses, o padre France-Williams foi contactado por vários colegas acerca do movimento Black Lives Matter. Palavras dele - "Alguns bispos em pânico quiseram que lhes escrevesse as suas declarações". Mau sinal... O objectivo é encontrar as palavras politicamente correctas e não as que brotam de coração chocado pela injustiça; reina o medo e não a solidariedade; buscam véus como álibis.

Os tempos são, contudo, de esperança para France-Williams. Conforta-o o sinal dado pelo arcebispo de Cantuária, ao dizer que devemos analisar a omnipresente representação "ocidentalizada" de Jesus, nado e criado em região de homens morenos, olhos castanhos e cabelos pretos, como refere Joan Taylor, do King"s College. Também na arte, sobretudo a partir do século VI, os véus foram poderosos - não representámos o histórica e geograficamente adequado, mas a projecção dos nossos valores estéticos e preconceitos étnicos.

Um último ponto a reter. O "jovem encantador" descreve a tomada de consciência das injustiças como a lenta subida de uma escada: três degraus galgados, um ou dois de recuo e recomeço da viagem. Perante a recente euforia de declarações e actos, parecendo sugerir o fim da escalada, teme que a descida seja maior e o vaivém recomece.

Partilho o seu realismo - sem prejuízo da necessária expressão pública do descontentamento, o sucesso dependerá de formigas tenazes e quase invisíveis e não de pontuais cigarras barulhentas. Mais do que derrubar estátuas, precisamos de educar homens e mulheres de carne e osso. Sensíveis a todo o tipo de discriminação e atentos aos véus culturais que nos toldam a visão do Outro, na sua absoluta dignidade e enriquecedora diferença.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Psiquiatra

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