Um psiquiatra no vale

Enquanto um de nós…

Enquanto um de nós…

O Natal traz-me como aio um poema de José Luís Peixoto, "na hora de pôr a mesa, éramos cinco". Fala de uma família que se estilhaça pela morte do pai e a diáspora dos outros membros. Alguém fica sozinho, mas sem dúvidas - "na hora de pôr a mesa, seremos sempre cinco. Enquanto um de nós estiver vivo, seremos cinco".

A poesia tem este dom, reconhecemos nela sentimentos que há muito transportamos dentro de nós. Num misto de admiração reverencial e inveja benigna murmuramos "é isto, como o adivinhou e quem lhe deu o talento para o esculpir a céu aberto?"

Como tantos, passei por momentos difíceis após um divórcio. O jantar ou o almoço sem os filhos nada tinham de natalícios, lembro a decisão disfarçada de pergunta de meu Pai - "concordará que sem os meninos nenhuma reunião familiar merece tal nome?" - e o modo como, ao abrigo da asa de minha Mãe, decretávamos ser aquela uma refeição como as outras. Não era. Nesses momentos fomos sempre cinco, os lugares dos rapazes invadiam silêncios e conversas de circunstância, tudo girava ao redor da sua ausência.

Nas últimas semanas ouvi de tudo. Os que recusam a "histeria pandémica" e preparam Natal clássico, se alguém torcer o nariz a porta da rua é a serventia da casa, admitindo que chegaram a entrar. Filhos sem saber como lidar com a postura dos pais idosos - uns paralisados pelo medo apesar das precauções planeadas, outros, argumentando que nada lhes garante a sobrevivência até ao Natal de 2021, querem gozar este em pleno. Gente que esmiúça cada lista de sugestões ou directrizes do poder em busca da alínea esdrúxula - não são raras... - que descredibiliza o todo e escora a transgressão. Avaliações de risco distorcidas pelos afectos, um clã familiar decretado à prova de vírus, o outro sentido como desmiolado senhorio do mesmo.

Uma torre de Babel que Deus não puniria, feita de incerteza e não arrogância. Também a habito. Sou um privilegiado, o núcleo duro dos Machado Vaz estará reunido. Mas terei os meus a quatro ou cinco metros de distância, os pratos equilibrados nos regaços enquanto a mesa range de solidão. Cobiço-lhes beijos e abraços há dez meses...

Abastardo o mantra do poeta - "na hora de subir a Cantelães, seremos sempre cinco". E à sombra da árvore onde repousam meus Pais e a cadelita que adiou o merecido repouso para nos cuidar um pouco mais, um dia destes, um mês destes, juntar-nos-emos num longo abraço, natalício por familiar.

Enquanto um de nós for vivo, o reencontro será lembrado e contado, numa reza laica do Terço que une as famílias através das gerações. Desejo o mesmo a todos, agora ou mais tarde. Porque "esta gente" lusa, celebrada por Sophia noutro difícil contexto, merece-o.

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O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Psiquiatra

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