Opinião

Muralhas tristes e Pink Floyd

Muralhas tristes e Pink Floyd

A Inês Cardoso explanou ontem as linhas mestras do meu pensamento sobre a Educação para a Cidadania e o Desenvolvimento, cujo carácter obrigatório preocupa alguns, por ameaçar o dever e direito de pais e mães escolherem "o género de educação a dar aos seus filhos". Limito-me a um par de notas.

A discussão traz à boca de cena a velha e - pensava eu! - ultrapassada dicotomia escola-família, como se uma e outra não estivessem sempre "condenadas" a intervir no modelar da consciência cívica dos jovens. Ao ouvir e ler algumas afirmações, recordei os célebres versos dos Pink Floyd: "We don"t need no education/We don"t need no thought control/No dark sarcasm in the classroom/Teachers leave them kids alone".

Roger Waters atacava um sistema educativo totalitário e avesso ao sentido crítico. Bom, os receios de alguns portugueses, partindo de uma perspectiva diversa, vão no mesmo sentido - "deixem os nossos filhos em paz", existe algo de conspirativo e ideológico no Ensino que visa liquidar a primazia da família na área dos valores.

A minha memória continua de férias e por isso foi numa dura luta por entre as suas brumas, sem entoar o hino nacional mas com a ajuda do Google, que desaguei num artigo da Lusa de Julho de 2009. A Plataforma de Resistência Nacional insurgia-se contra as aulas de educação sexual e o seu porta-voz era o mesmo que agora, com inegável coerência, espoletou a polémica.

Uma frase sobressai - na escola os alunos apenas deviam aprender "a parte biológica do sexo". Ou seja: os nossos jovens aprenderiam a anatomia e a fisiologia do sexo, despido de qualquer contextualização psicológica, afectiva, social ou histórica, striptease que costumamos reservar para a pornografia.

Acontece que uma das características preconizadas para a Cidadania e Desenvolvimento, a transversalidade curricular, também se aplica à sexualidade, ou seja, ao sexo emoldurado psicológica e culturalmente. O resultado lógico seria o reivindicar de objecções de consciência pontuais.

Aula sobre a Grécia Antiga? O professor falaria da dimensão erótica da relação erasta-erómeno? Os pais poderiam recusar a presença dos filhos. Literatura? Dependeria da obra e dos valores nela veiculados. Religiões? Bem, desde que a interpretação do Cântico dos Cânticos fosse canónica...

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Trata-se de uma nostalgia de poder e "imortalidade" - Cá em casa temos uma visão do Mundo que será a dos nossos filhos. É a verdadeira e a diversidade de opiniões dos outros habitantes da cidade coloca-a em risco.

Se pactuarmos com esse mundo amuralhado, mereceremos outros versos dos Floyd - "The child is grown/The dream is gone/And I have become/Comfortably numb". Confortavelmente entorpecidos não iremos longe...

(o autor escreve segundo a antiga ortografia)

*Psiquiatra

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