Opinião

Num ecrã perto de si

O "La Vanguardia" citava um estudo do portal americano Convenant Eyes, de 2015: nove de cada dez rapazes e seis de cada dez raparigas tinham visto pornografia online antes dos 18 anos; em média, o primeiro contacto dava-se por volta dos 12; 71 por cento dos adolescentes escondiam as pegadas digitais da vigilância parental.

Gosto de bisbilhotar os comentários dos artigos, neste caso as opiniões seguiam três eixos principais: a recusa do alarmismo "eu também vi pornografia e não sou um degenerado"; a sugestão de maior controlo por parte dos pais, presencial ou através de aplicações que bloqueiam o acesso a conteúdos; e o pedido, também presente no artigo, para exercermos a nossa função educativa, discutindo desde cedo o tema e incitando-os a uma avaliação criteriosa de toda a "realidade" virtual.

A pornografia não foi inventada ontem, seria risível decretar os que a consumiram como perigosos para si e/ou para outros. Mas existem riscos, sobretudo em idades prontas a serem moldadas pelo exemplo e com circuitos neuronais ávidos de novas aprendizagens.

Desde logo, a dependência, que pode, com o tempo, "exigir" o aumento do estímulo, ou seja, conteúdos mais violentos. Nos rapazes, o desenvolver de uma visão do sexo baseada em desempenhos físicos que os inferiorizam e a tendência para verem as mulheres como objectos de desejo e domínio e não Sujeitos, autónomos e com direitos iguais. Na clínica surgem casos em que o estímulo pornográfico se tornou mais poderoso do que o obtido nas relações sexuais "de carne e osso", com problemas de excitação que infernizam a vida erótica a dois.

Só ouço queixas? De modo algum!, existem muitos casais que integram a pornografia no seu arsenal erótico. (De comum acordo, ceder à pressão do outro, violentando-se, nunca é boa ideia). Ou homens e mulheres que a consomem de quando em vez sem sombra de pecado, culpa ou problema.

Mas nos mais jovens preocupa-me tudo o que favoreça a interiorização de um modelo estereotipado de vida sexual - mecânico, desprovido de moldura comunicacional, sem espaço para o erotismo porque corpos acéfalos ocupam a boca de cena. E não creio que uma alegada pornografia feminista, como a de Erika Lust, torne caduca a afirmação de Shelley Jeffreys: "a liberdade sexual completa dos homens para dominar e maltratar mulheres sob a égide do "sexo" não é libertadora para as mulheres".

De uma coisa tenho a certeza - falharemos a libertação dos dois sexos se permitirmos que a pornografia seja, neste Mundo tão saturado de sexo e órfão de erotismo, um veículo privilegiado de "educação sexual". Ou de educação, sem mais. Afinal, pode alguém crescer inteiro sem abordar a sexualidade?

o autor escreve segundo a antiga ortografia

*Psiquiatra

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