O Jogo ao Vivo

Opinião

Os meus pilares

Aos Josés.

O Zé (Pacheco Pereira) escreveu sobre minha Mãe e Avó na Ephemera de um modo tocante. Ler que fui o seu grande amigo de infância não constituiu surpresa, ele foi o meu, mas um carinho às vezes cai bem, diz o Caetano. Construímos uma amizade que resiste à distância, embora não desculpe que vivamos como se fôssemos eternos, adiando demasiadas vezes alegres reencontros.

Outro amigo, ao telefone. Disse que lhe apetecia ouvir-me, as mensagens não têm o mesmo sabor. Podia ter desligado sem mais, o bem estava feito e eu em dívida. Mas não, partilhámos receios pelos que amamos, nostalgias pelo não vivido com quem partiu, esperança de correr para o Sá Carneiro e voar rumo ao Languedoc e à Provença. Senti o quanto precisava de o ouvir mesmo!, ele que pertence a uma categoria rara e preciosa de amigos - os de infância que só conheci adulto.

Os amigos são os pilares de uma resiliência fatigada. Olho em redor com melancolia. Reduzi a informação que consumo, tenho medo de esquecer as pessoas por trás da avalancha de números, mas não sou cego e a minha profissão é escutar, incluindo as descrições angustiadas dos colegas.

Ouvi António Costa: "Se acha que resolve o problema do país dizer que a culpa é minha, ofereço-me desde já esse sacrifício. É assim que eu vivo com a minha consciência e assumindo plena responsabilidade pelas circunstâncias em que o país está hoje".

Ecos de juventude: "Cordeiro de Deus que tirais o pecado do Mundo...". Não duvido que assuma a responsabilidade por uma decisão que considerei errada por basicamente política. A qual, diga-se, outros partidos imitariam. Mas incendiária para os apetites de muitos "pecadores", que aproveitaram para viverem a época natalícia na habitual vertigem consumista e em reuniões alargadas e itinerantes de que conheciam os riscos.

Mas centrar a discussão no Natal é enganador, podíamos e devíamos estar mais bem preparados para o que tanto o primeiro-ministro como o presidente da República anunciaram - o mais do que provável agravamento da situação no Outono, ainda potenciado no Inverno. Um exemplo é o absurdo atraso dos inquéritos epidemiológicos, evitável com um atempado reforço da Saúde Pública. Outros, uma informação sinuosa, um estranho confinamento light e as hesitações no que às escolas e aos idosos diz respeito.

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Uma última palavra para a moldura de relatos e textos de opinião que circulam nas redes sociais. Nalguns comentários e apelos que lhes acompanham as partilhas há um regozijo mal escondido; não se pretende informar, mas sim drenar ressentimentos e obter dividendos políticos. E isso é obsceno.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Psiquiatra

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