Um psiquiatra no vale

Os (outros?) filhos de Deus

Os (outros?) filhos de Deus

Há quase trinta anos entrevistei dois homossexuais seropositivos na RTP. De costas e com vozes distorcidas, por receio da discriminação, em particular laboral. Durante a conversa surgiram os termos "casal" e "família", o que transformou o programa num dos que geraram mais cartas de protesto ao longo do Sexualidades, muitas pessoas sublinhavam que eram conceitos reservados a pessoas normais, ou seja, heterossexuais.

Leio as palavras de Francisco que agitaram a semana e não brotaram do nada. Maria-Paz López escrevia no "La Vanguardia" de sexta-feira que, em 2010, o então cardeal Bergoglio já advogava, na Argentina, a união civil como um mal menor que evitasse a aprovação do casamento homossexual, visto como um "ataque destrutivo ao plano de Deus".

Neste momento vê a luz do dia um documentário em que Francisco afirma: "Os homossexuais têm direito a ter uma família. São filhos de Deus e têm direito a uma família. O que temos de fazer é criar uma lei para as uniões civis. Assim estão protegidos legalmente. Defendo isso".

(Será injusto acorrentar Francisco a um único tema, ele aborda um largo leque: dos refugiados ao lugar das mulheres na Igreja, passando pela obscena e crescente pobreza).

Vera Novais, no "Observador" de quarta-feira, salientava que a doutrina da Igreja permanece inalterada e referia o taxativo número 2357 do Catecismo da Igreja Católica: "os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados".

Junto-lhe o 2358. Após declarar a homossexualidade uma provação para a maioria dos que a praticam, preconiza: "Devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza. Evitar-se-á, em relação a eles, qualquer sinal de discriminação injusta". E o 2359 - "As pessoas homossexuais são chamadas à castidade. Pelas virtudes do autodomínio, educadoras da liberdade interior, e, às vezes, pelo apoio duma amizade desinteressada, pela oração e pela graça sacramental, podem e devem aproximar-se, gradual e resolutamente, da perfeição cristã".

As palavras de Francisco ecoarão na Igreja, merecendo a alegria e eco de muitos e a repulsa dos que o abominam; darão alento aos que se batem contra a discriminação e talvez façam pensar duas vezes os que desejam reforçá-la; e a cidade inteira as discutirá, as opiniões e práticas da Igreja não tocam apenas os fiéis.

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Testemunho que muitos padres já não deixam esta parte do Catecismo tolher-lhes o diálogo com os seus rebanhos. Mas enquanto o discurso oficial se mantiver, o seu olhar será sempre o da tolerância culpabilizante e não do respeito fraterno por todos os filhos de Deus. Não acreditando na perfeição, cristã ou outra, este agnóstico crê piamente que esse respeito merece a Sua aprovação.

* Psiquiatra

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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