Opinião

Para lá do calendário

Para lá do calendário

Não fui a Cantelães. Médico, nenhum compromisso profissional me exigia lá. Vieirense de adopção, residente numa área de risco elevado, receei assustar quem me acolheu como filho da terra.

Assim, hoje não colocarei flores na árvore onde repousam Avó, Pais e cadela favorita. Não receio mal-entendidos ou acusações de desleixo, os meus mortos conhecem-me hábitos e coração - aquela árvore é o meu cais de chegada e partida em Cantelães. E varanda para os moinhos de vento da Cabreira, que contemplo numa tristeza pacificada.

Utilizo a palavra tristeza deliberadamente. Esta sociedade nega-a ou exila-a na depressão, o que é um erro científico e uma porta entreaberta à discriminação. Sim - ali, eu e a tristeza sentamo-nos lado a lado. Poderia ser de outra forma? Sem eles, o Mundo ficou tão empobrecido! Mas segui em frente, como desejariam.

Estes mortos não receiam confinamentos, nem sequer no meu coração. Sempre que estamos juntos, o José Álvaro Pacheco Pereira lembra minha Avó; antigos alunos desfiam recordações das aulas de meu Pai; desconhecidos presenteiam-me na rua com frase doce, "ainda tenho em casa os discos da mãezinha"; os membros da tribo juram que o corredor de Cantelães não é o mesmo sem o trotar guloso da Milita, rumo à despensa. (Não preciso equiparar um cão às pessoas para lhe agradecer o insubstituível carinho que me dedicou).

A memória garante a sobrevivência dos afectos para lá da ausência física. Como eu, muitos continuam a "falar-lhes", suspirando por conselho em tempo de dúvidas ou apenas desejando boa noite a fotografias na mesa de cabeceira.

Visto aos meus mortos, sem precisarem de retoque de alfaiate, os versos do Eugénio a um Amigo: "Não voltará - o que dele me ficou/é como no inverno entre cortinas/de chuva um tímido fio de sol:/ilumina mas não aquece as mãos". O calor deles faz-me tanta falta! Mas, tímida ou não, da árvore em Cantelães, dos sorrisos sobre a lareira, das minhas entranhas a sua luz continua a guiar-me.

Compreendo o desconsolo de quem não pode cuidar de uma sepultura, flori-la, recolher-se perante ela, saudar quem todos os anos faz o mesmo, vizinho na saudade. (Deveríamos organizar uma corrida de automóveis em cada cemitério?). Mas as pessoas entenderão que cuidar dos vivos é uma nobre forma de honrar os mortos; sentirão que os entes queridos desejariam sabê-los protegidos. Peregrinarão noutro dia e a doçura de gestos e sentimentos não será menor. Porque a viver, morrer e amar nada acrescenta a bênção dos calendários, Deus ou a simples (?) busca humana da transcendência não lhes passaram procuração.

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Em "O Rapazinho", Reggiani cantava "chove na minha memória". Que hoje brilhe um sol cálido nas vossas.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Psiquiatra

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