Um psiquiatra no vale

Pela mão do Ernesto

"Madrugada fora, um leve calor de Primavera osculando Verão, em cuja fronteira eu fazia anos, vinha ensinar-me que, com estes pais, a minha vocação era a felicidade."

Mergulhei no passado pela mão do Ernesto Rodrigues, que sempre me "obriga" a pensar, admiro-lhe o talento e a coerência na defesa das suas causas. A sorte fez com que tropeçássemos um no outro e estimo-o, respira ternura solidária e uma ironia fina, mãe do sorriso fértil, não da gargalhada pontual. E estou-lhe grato por razões que nos pertencem.

Acaricio-lhes as fotos e murmuro - "também os meus". É verdade que resisto à palavra felicidade, há nela a sugestão de uma "resiliência beatífica" às agruras da vida que me espanta, será possível ser feliz sem contrato a termo? Talvez desiludindo as expectativas de meus Pais, baixei a fasquia das minhas, saboreio cada momento feliz com o paulatino desespero de quem adivinha o próximo cinzento existencial.

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De regresso ao presente. Nesta Primavera tão pouco de fiar, tanto ao nível da meteorologia como da pandemia, como estou de momentos felizes? Anémico. Razões? A primeira que me ocorre está bem expressa numa frase de Locke - "é preciso metade do tempo para usar a outra". Avalio o último ano e meio e chego a conclusão irrefutável - sem me aperceber tive uma recaída. No fim de 2019 reorganizara o quotidiano de forma a salvaguardar a "minha" metade e dedicá-la aos meus, de preferência acompanhados por discos e livros na casa do campo, como cantava a Elis. E essa parte ociosa de mim tornava a outra mais eficaz, por meditada e não simplesmente reactiva.

Mas a pandemia foi enganosa em termos profissionais. As organizações foram transferindo compromissos para a esfera digital e deu-se um fenómeno interessante - mais versada na tecnologia, decidida a não definhar na rotina, muita gente criou blogues, plataformas, grupos de discussão, uma miríade de fóruns que "só" nos pedem uns minutos por Skype ou Zoom. Um amigo dizia, risonho - "já tremo ao ouvir a palavra webinar!". E não será a retoma cautelosa das actividades presenciais a travar esse novo modo de funcionamento, os dois registos vão entrelaçar-se.

Consulto a agenda para o futuro próximo - uma selva, apenas permite reagir a estímulos que nem por sombras despertam a saliva dos cães de Pavlov. Preciso de contemplar os moinhos da Cabreira sem prazos e tarefas a cumprir; oferecer-lhes o ócio que merecem.

O receio de desiludir os amigos. Falo ao Domingos e à Inês, o mesmo carinho - "cuide-se". Envelhecer sem azedume. Saborear mais vida com menos culpa. Alucinar, sobre a lareira, um sorriso aprovador de meu Pai.

Seja, vou gozar licença sabática do JN. A quem me seguiu, um abraço grato, continuaremos juntos como leitores, os eternos garantes da sobrevivência da Palavra.

*Psiquiatra

O autor escreve segundo a antiga ortografia

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