Opinião

Perguntem à Alice

A Santa Casa da Misericórdia de Pinhel partilhou o vídeo do reencontro de um casal que um internamento hospitalar separara durante um mês. Uma imagem vale mais do que mil palavras, quem se atreveria a contrariar Confúcio? Os beijos, afagos e sorrisos não mentem - presenciamos um momento de absoluta felicidade.

O casal é descrito como "enamorado". Bela palavra, mas, sejamos honestos, pouco habitual quando se fala de idosos. Porque o enamoramento, nesta sociedade em busca do elixir da eterna juventude, parece monopólio dos mais novos. De mãos dadas com outras palavras como paixão, desejo e sexo, dir-se-ia que estão proibidas aos mais velhos.

Recuo onze anos e lembro um artigo de Natália Faria no "Público", mencionando o estudo de Aron, que através de ressonância magnética estudara as ondas cerebrais de casais que se diziam ainda apaixonados. Dou-lhe a palavra: "Inicialmente, quando as pessoas me diziam que continuavam apaixonadas ao fim de 20 anos, pensei que estavam a enganar-se a si próprias. Mas os exames das ondas cerebrais demonstraram que havia mesmo um pico de produção de dopamina quando viam a fotografia do parceiro".

Ressonância magnética, ondas cerebrais, dopamina, eis a respeitabilidade científica tantas vezes negada aos psicólogos e psiquiatras! Que apenas (?) escutam. Pessoas que se separam, recasam, amam, sofrem, acusam ou pedem outra oportunidade, alheias à ditadura burocrática dos cartões de cidadão; esplendorosamente vivas.

Brel compôs e interpretou "Les vieux", uma obra-prima que narra o nosso cambaleio, ao som de um relógio de salão que ronrona e nos empurra, com impiedosa doçura, para a morte. A canção começa assim: "...os velhos já não falam ou então apenas às vezes com a ponta dos olhos/mesmo ricos são pobres, já não acalentam ilusões e têm apenas um coração para os dois...".

Sempre que a escuto, enroscado num enamoramento que nunca esmoreceu, murmuro a heresia - "Grand Jacques, não tinhas razão. Era o pânico da velhice a falar, preferias-lhe a morte, por te afiançares insuportável e certo de que as tuas mulheres te deixariam. Acolheste o cancro como um mal menor? Fizeste mal, querido, os afectos podem viver em plenitude até à última badalada do relógio".

Se escolhesse voz para me acompanhar nessa discordância emoldurada pela admiração bateria à porta da Alice Vieira, saboreia a vida com tanta paixão que nem a morte lhe apagará o sorriso, se existir um "para além" será vivido com o mesmo gozo. Disse ela que "há cheiros de infância que não morrem nunca, nem sequer envelhecem como a nossa pele". Com muito trabalho e uma pitada de sorte, o mesmo acontece a alguns amores.

PUB

E não só em Pinhel......

*Psiquiatra

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG