O Jogo ao Vivo

Um psiquiatra no vale

Portas adentro…

... a violência doméstica teve uma Primavera em cheio. A 15 de Junho, Dia Mundial da Consciencialização da Violência contra a Pessoa Idosa, os números desenharam uma realidade que não surpreende, mas entristece.

E traz a reboque um espelho acusador: na quinzena de 11 a 24 de Maio duplicaram os contactos com a Rede Nacional de Apoio às Vítimas de Violência Doméstica - de 2500 para 5430 -, aumento que se manteve nas duas semanas seguintes, e entre 13 de Abril e 7 de Junho houve 1171 atendimentos a mulheres com mais de 65 anos.

Para essa faixa etária serão criadas três novas estruturas residenciais com equipas especializadas, por se considerar que as existentes - estruturas de emergência e casas-abrigo - visam o apoio imediato e a autonomização e integração laboral das vítimas, objectivos pouco realistas para a maioria destas mulheres.

(Aplaudindo a iniciativa, penso na dupla injustiça sofrida pela maioria das vítimas de violência doméstica - a protecção oferecida implica o exílio de geografias afectivas e residências, alicerces fundamentais das suas identidades. A um trauma junta-se outro, a vítima esconde-se; como o faria um culpado).

Os meus colegas da APAV têm razão, ultrapassado o confinamento, estas mulheres falaram. As que falaram, lidamos sempre com a ponta do icebergue. Os relatos são os mesmos há tantos anos: vão da violência física, incluindo a sexual, às palavras que deixam nódoas negras na alma; descrevem gentes que não suportaram a recusa de uns poucos euros a outras que se apropriaram de contas bancárias ou reformas; ilustram a negligência mais grosseira e a indiferença que empurra a vítima para a solidão.

(Lembro choro de mulher, "doutor, ele não gosta de mim, já nem sequer me bate quando o Porto perde". A sabedoria subjacente - o oposto do amor não é a raiva, ainda uma forma de sinistra proximidade do Outro, mas o desinteresse, que o torna invisível).

Acresce que esta geração de mulheres, mais do que qualquer outra, foi modelada para duvidar da própria existência do abuso, considerando-o natural ou inevitável e suportando-o em nome da honra da família, do bem-estar dos filhos, da tradição; do medo.

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Que fazer?

"O modo mais eficaz de seres útil à tua pátria é educares o teu filho", escreveu Ramalho Ortigão. Sem dúvida, a educação, essa vacina indolor, mas que exige tempo e gerações! E voluntários disponíveis para a aplicarem......

Vejamos a idade dos agressores; regressemos às opiniões de universitários que consideram normais bofetadas no namoro; admitamos que práticas machistas sobrevivem, sem grandes sobressaltos, a políticas adequadas mas recentes e a muitos discursos com tanto de politicamente correcto como de pusilânime.

Quem educará muitos dos educadores?

Psiquiatra

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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