O Jogo ao Vivo

Um psiquiatra no vale

Profissionais de saúde

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"Mediterrâneo", do meu colega João Luís Barreto Guimarães, venceu um prémio de poesia nos Estados Unidos. Saboreio a alegria do amigo, saúdo o mais recente louvor a uma obra em constante evolução e sacudo a inveja benigna que o talento me desperta.

Penso no quanto a poesia me ajuda em dias lentos que passam a correr; gémeos. Já confessei que a ficção se me tornou difícil, por dificuldades de concentração, mas não sugeri que o poema fosse uma leitura "fácil", por económica de palavras e curta de enredos, virar a página é dobrar a esquina para outra rua.

Não. A prosa sedutora começa por me levar pela mão. Depois navego a solo e enrosco os fantasmas do autor nos meus. Sigo viagem até fechar um livro que já reescrevi, cada sublinhado transforma-se em nota de rodapé. Clandestina, mas indelével.

Quando a poesia me toca é de um modo siderante. A observação de Herbert Simon justifica-se: "A intuição não é nem mais nem menos do que reconhecimento". Assim os poetas: o talento permite-lhes a intuição de memórias comuns, cujo fogo reavivado me coloca frente ao espelho. Talvez cruel, mas indispensável a uma viagem feita em contemplação agradecida. Acredito que os poetas esculpem as palavras, maravalhas saltando, na busca do silêncio pleno de significado, que apenas suporta a troca de um olhar cúmplice.

Mas há silêncios imperdoáveis, por isso devorei a reportagem de Joana M. Soares e Sara Soares Gomes sobre auxiliares e empregados de limpeza no Pedro Hispano. Patrícia Fernandes "trabalha 12 horas por dia, ganha o salário mínimo e sente-se esquecida por quem regula a Saúde em Portugal". Eunice Bartolomeu "desabafa que as suas tarefas são invisíveis fora do hospital". Cláudia Ferraz, enfermeira-chefe, salienta que são indispensáveis para o "trabalho de excelência" do serviço e é peremptória - "não são valorizadas".

Porquê? Serão vítimas de cegueira economicista? Ou "simples" falta de respeito? O meu não é só uma questão de princípio, uma colega delas acompanhou-me com desvelo na urgência. A médica a quem calhei em sorte (?) foi de uma dedicação e competência inexcedíveis, mas uma auxiliar afagou-me o braço e murmurou um "vai correr bem" de que precisava muito e não esquecerei.

O João cuida-me ao domicílio e não como cirurgião plástico. Escrevia, aos 45 anos: "As cores que irão despontar neste fevereiro tardio não encontram em teu corpo precisa comparação". A caminho dos 72, sorrio perante a sua tão jovem angústia! Pois bem - mesmo outonecido e empalado por um tenaz cinzento, a reboque da poesia dele e dos seus "cúmplices" acalento a esperança de o meu corpo acolher e saborear em breve um arco-íris primaveril.

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Psiquiatra

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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