Opinião

Que o Porto seja Porto

Que o Porto seja Porto

Assinada a petição para dar a uma rua do Porto o nome de Gisberta, fui assolado por um pensamento perturbador - há quanto tempo não pensava nela? Demasiado.

Vivemos soterrados por um dilúvio de notícias avulsas, cada uma delas é substituída por outra a um ritmo frenético, a tristeza escandalizada perante algumas - lembro a criança morta à beira-mar... - é genuína, mas cai prisioneira de novo estímulo e permanece superficial; na maioria dos casos, não se transforma em acto modificador do Mundo.

Esta petição é a terceira (cito o povo - será de vez?). O que aconteceu há 15 anos a Gisberta, transsexual, sem-abrigo e seropositiva, foi sobejamente noticiado, os mais novos encontrarão no Google a sua triste estória. Agredida ao longo de dias por um grupo de adolescentes, que a dado momento a julgaram morta e lançaram a um poço na esperança de encobrir as agressões, nele morreu afogada. Ela e os mais básicos princípios da decência.

Cresci em Anselmo Braam-camp, lembro-me de perguntar a meu Pai quem fora. Ele desafiou-me a descobrir. O que fiz. E aprendi que em 1895, a 1 de Maio, a autarquia baptizara uma rua já existente com o seu nome, homenageando um político de que passei a conhecer, embora mal, vida e obra. E assim uma placa nos reenvia para alguém e a sua importância para a comunidade.

Não é indispensável mergulhar no passado para encontrar baptismos de ruas ou equipamentos. Suspeito que sou, pela amizade que lhe dedico, membro de uma geração que continua a falar do Palácio de Cristal, quando ouço falar do Pavilhão Rosa Mota sorrio, satisfeito. E com tantas memórias privadas e públicas à disposição, regresso à maratona de Atenas em 82 e a uma garota frágil, atravessando a meta com aquele sorriso inconfundível nos lábios. A Rosinha enche-nos de orgulho e faz bem à nossa auto-estima, oferecer-lhe um Palácio de Cristal pareceu-me justo.

Gisberta toca-me de um modo bem mais complexo. Sinto horror pelo que lhe aconteceu, vergonha por não ter encontrado neste país a segurança sonhada, desencanto pela "prova de vida" do ódio discriminatório que a sua morte representou. E continua a representar!, a raiva à diferença, em Portugal e no estrangeiro, não se limita a sobreviver, nalgumas paragens floresce como nunca.

Penso que esta petição tem mais do que um mérito. Homenagear e lembrar qualquer vítima da barbárie é importante, a História ensina que ignorá-las é um atalho para que se multipliquem. Mas semear Gisberta no espaço público é também contribuir para que a luta por o democratizar não esmoreça e desperte mais consciências.

PUB

Por todo o lado. Mas em breve, deseja este tripeiro, na cidade generosa e estóica que sempre se bateu pela Liberdade.

*Psiquiatra

O autor escreve segundo a antiga ortografia

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG