Um psiquiatra no vale

Rumo à luz

Quando Amanda Borman acabou de ler o seu poema na posse de Joe Biden fiquei comovido. Implacavelmente bordadas sobre uma realidade tenebrosa, as palavras voavam em busca da luz, recusando confinamento nos Estados Unidos; desafiavam o Mundo.

Buriladas por uma rapariguinha negra, fizeram-me sonhar com um tempo em que a discriminação se acoite, envergonhada, nos livros da História. Imaginei o poema traduzido em todas as línguas, debatido em aulas, cafés, jantares de família; e a solo, pensar é um diálogo permanente entre as ilhas do nosso arquipélago mental.

"Traduzido em todas as línguas"... Na Catalunha, Victor Obiols foi vetado como tradutor de parte da obra de Amanda. A Viking Books reconheceu-lhe o curriculum vitae - traduziu, por exemplo, Wilde e Shakespeare... -, mas deseja que a tarefa seja entregue a uma mulher, activista e de preferência negra. A tradução dele está pronta e veria a luz nas livrarias a 8 de Abril.

Engoli em seco. Pelo canto do olho, vi um link apontado à Holanda. Marieke Lucas Rijneveld, aos 29 anos a mais jovem vencedora de sempre do prémio Booker International (2020), foi escolhida para traduzir o poema, com a bênção de Amanda. Seguiu-se uma tempestade mediática, a activista negra Janice Deul perguntou porque não escolhera a editora uma mulher como Amanda, "jovem, feminina e assumidamente negra" (Marieke é branca e não binária quanto ao género). Espantada com o burburinho, Marieke desistiu da tarefa que, palavras suas, acolhera com alegre entusiasmo e reconheceu estar numa posição de privilégio em relação a outras pessoas.

Socorro-me da crónica de Kenan Malik no "The Guardian": "Lost in translation: the dead end of dividing the world on identity lines". O beco sem saída... Obiols é homem e branco, Rijneveld é branca e "não feminina". E contudo ele identificou-se com Homero, Wilde e Shakespeare, ela é uma jovem escritora premiada e da confiança de Amanda, serão incapazes de fazer justiça à sua poesia? Malik tem razão - para alguns, a defesa da identidade de grupo implica ameias desconfiadas, se um cerco foi levantado alucinam outro.

Orbiols diz-se vítima de uma nova Inquisição, Marieke foi politicamente correcta e dedicou a Amanda um melancólico poema de esperança. Entretanto, auto-arvorados guardiães tolhem a mensagem de um poema que termina assim: "Porque há sempre luz, / se ao menos tivermos a coragem suficiente para a ver. / se ao menos tivermos a coragem suficiente para a ser".

Alguns zelotas não têm essa coragem, dançam à roda de fogueiras privadas e não arriscam madrugadas conjuntas. Teria sido bom que Amanda telefonasse a Marieke e dissesse: "Bater-me-ei pelos direitos dos afro-holandeses, mas os meus versos exigem que reconsideres".

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Psiquiatra

o autor escreve segundo a antiga ortografia

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