Um psiquiatra no vale

Um homem sábio

Muitos de nós se encantaram com a relação entre Fernando Almeida e uma raposa em Oleiros, perto de Bragança. Encontrada inerte na estrada, tratada com desvelo, recuperou e desapareceu. Por poucos dias, hoje é visita quotidiana para jantar da mão de Fernando, que a baptizou com nome ternurento - Linda -, pelo qual responde. As reportagens escritas sobre o caso terminavam com uma frase que me fez sorrir - "ela é selvagem, não está presa".

Dir-me-ão que estou a antropomorfizar o comportamento do bichinho, afinal volta onde sabe que a recompensa é garantida a horas certas, comanda-a o estômago e não o afecto. Aceito que não se apaixonou por Fernando à primeira asa de frango, ao que parece sua iguaria favorita. Mas é indiscutível a relação de confiança estabelecida, Linda sente-se cuidada.

Além disso, respeitada. A frase de Fernando é lapidar e permitiria sem protesto a troca de "selvagem" por "livre", ele não ambiciona transformá-la num animal doméstico ou, pior ainda!, em atracção de feira.

Recuei décadas e "ouvi" Alberoni sobre os afectos. A tendência para primeiro nos maravilharmos com as diferenças do Outro e depois, sorrateiros, as tentarmos limar à (nossa) medida que a relação se prolonga, por medo de o perdermos. Assim domesticando a pessoa e transformando o milagre do acorde de duas liberdades numa relação de poder, mesmo se camuflada. Estranho negócio: para não perdermos o Outro que nos cativou - como dizia a raposa do Principezinho - fazemo-lo nosso prisioneiro e estrangulamos algumas das características que nos fascinaram. De cativante passa a cativo. E sem direito a saídas precárias!

Nesta pandemia, a insegurança, que leva alguns a oferecer a quem amam uma gaiola dourada fechada a sete chaves, subiu em flecha. Por onde anda? Com quem? O que faz? Porque não vive em contacto tecnológico permanente, de preferência com imagem, para evitar "dúvidas geográficas"?

Caetano Veloso em Você é Linda - "Você é linda sim/Onda do mar, do amor/Que bateu em mim.../. Fernando sabe isso acerca da "sua" Linda. Uma onda do mar aprisionada, se não desaparecer por entre os dedos da areia, transformar-se-á num pântano sobrevoado por mosquitos que não trazem a malária, mas o desencanto e o ressentimento.

Quem chega aos nossos braços sem ser chamado por megafone ou chantageado em surdina, e a eles regressa por os abandonar de quando em vez em busca do seu espaço físico e psicológico, abriga, no bolso do amor, uma liberdade contagiosa. Porquê? Por nos libertar da dúvida sobre o seu desejo de estar connosco àquela mesa sobrevoada por sorrisos abertos e mãos que se procuram.

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(Mesmo que a ementa do jantar não inclua frango...).

O autor escreve segundo a antigo ortografia

*Psiquiatra

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