Um psiquiatra no vale

Um homem só

A sala é pequena, mas mesas melancólicas por vazias estendem-se a perder de vista. Há longos anos um dos meus filhos trouxe-me pela mão com a promessa de um bom peixe grelhado.

Daí para cá os robalos sucederam-se a bom ritmo, sou um tipo de hábitos, pouco dado a trocar um excelente jantar por aventuras na selva desconhecida do resto da ementa. Fui adoptado pelos clientes habituais - "boa-noite, doutor" - e vi enchentes de populações flutuantes, incluindo estrangeiros deliciados com "lambretas" de graduação alcoólica indecifrável que derrapam garganta abaixo.

De tudo isso resta o dono. Sorriso doce e dialecto clássico de restaurante matosinhense, diminutivos carinhosos e perguntas retóricas, "o peixinho do costume?". Como sempre, o jantar está bom, mas não é um bom jantar. Por minha culpa, abrigo pergunta fúnebre e tenho medo de a fazer, sobreviverá ele a novo confinamento?

Todos os dias passo pelo cadáver da Galiza e dói, o luto está por fazer. Ouço que o café à beira-consultório não reabrirá. O coração, de que García Márquez dizia ter mais quartos do que uma casa de putas, terá de arranjar espaço para cinquenta e cinco anos de recordações; da correria às empadas nos intervalos das aulas no João de Deus, às saladas de hoje, nos intervalos das consultas.

Falamos de trivialidades, ele reforça a cesta do pão e eu peco à sombra de análises benévolas. Desaguamos em Florbela Espanca, que morou por cima. Se a sua poesia me aquece o coração, o suicídio parece de mau agoiro, decido-me e faço a pergunta.

E ele,

- Vai depender dos apoios. Dos que chegarem, anúncios já vi muitos.

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Que posso fazer? Discuto o takeaway, ele não assegura o peixe, mas responde pelo rosbife. Arrisco um "médio?" e o profissional brioso todo se eriça, "isso não é rosbife". Seja, tudo menos vê-lo fechar portas.

Porque um deserto habitado cresce à minha volta e acarreta uma culpa irracional. Não abandonei ninguém, mas sair incólume da hecatombe de tantos incendeia a dúvida - podia fazer mais?

O Pedro Mexia citava Régis Debray: "o fim do nosso mundo não é o fim do mundo". Sim, o que se esboroa recusa cemitérios, enroscado na memória, mas não proíbe um futuro menos sombrio, ambiciono saboreá-lo. E este homem? O restaurante é a sua vida. Receio que na aparência lhe sobreviva, mas lá no fundo desista e anoiteça com discrição; sem incomodar. Como ele, muitos, que tanto fizeram para merecer os apoios, na restauração como na Cultura, por exemplo.

Florbela o escreveu - "E não se quer pensar!... e o pensamento/Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...". É bom que o pensamento do que está em jogo para tanta gente nos morda espírito e calcanhares, trata-se da sua vida. E não há vacina para a falência.

O autor escreve segundo a antiga ortografia

*Psiquiatra

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