Opinião

O pântano

Há 20 anos, comprávamos, por estes dias, os últimos presentes de Natal com o velhinho escudo. O país preparava a entrada em circulação da nova moeda europeia, o euro.

Desde a adesão de Portugal à Comunidade Económica Europeia (CEE) - hoje, União Europeia - que os portugueses experimentavam progressivamente melhores salários, melhores infraestruturas, um país mais moderno. O frenesim da moeda única tinha o seu tempo de antena nas notícias, onde se ouvia repetidamente o valor da conversão dos escudos em euros: duzentos ponto quatrocentos e oitenta e dois escudos (200.482) era o valor de um (1) euro. Entre brindes e marketing da época, recebíamos pequenas máquinas azuis para que a partir do dia 1 de janeiro de 2002 pudéssemos, com rigor, fazer as devidas conversões. Ainda hoje não falta quem não consiga evitar a tradução de 25 euros em 5 contos.

Foi um período de novidade em que gozávamos o sentimento positivo dos quinze anos de pertença à CEE. Foram muitos os benefícios da entrada de Portugal na Zona Euro. Imagine-se o que seria hoje termos de trocar escudos por pesetas para uma visita à nossa vizinha Espanha... A moeda única reduziu os custos de financiamento (através de acesso mais fácil e barato ao crédito e taxas de juro substancialmente mais baixas), e trouxe um nível de inflação baixo. Estavam (supostamente) reunidas as condições para que Portugal seguisse a trajetória de forte crescimento económico que se verificou até ao início do segundo milénio. No entanto, tal não se verificou e Portugal registou uma estagnação nos últimos 20 anos. Salários congelados, dívida galopante e competitividade decadente. O ímpeto reformista que caracterizou os governos de Cavaco Silva, e que coincidiu com a entrada de Portugal na UE, perdeu gás sobretudo a partir de 2001. Seria fácil culpar o euro. De todos os outros países da Zona Euro, apenas Itália e Grécia tiveram um crescimento económico mais tímido, e semelhante ao português. Por isso, a razão de um eventual desencanto radica, em grande medida, naquilo que o país optou por não fazer, como continuar o processo de reformas estruturais capazes de adaptar Portugal à nova arquitetura monetária. Preferimos sempre manter o status quo do que mudar o que precisamos.

PUB

No plano nacional e europeu, temos agora inúmeros desafios pela frente, desde a transição digital e ambiental, para os quais a moeda única terá o seu papel. Para isso, é preciso reforçar a nossa moeda no Mundo, num compromisso com o crescimento económico e a estabilidade financeira. Portugal não pode continuar num pântano de estagnação económica e a transição em curso pode ser o impulso para as reformas tão necessárias ao país.

Certamente que o euro tem mais futuro do que passado. Mas, quanto a Portugal, é urgente mudar para podermos prosperar e aumentar salários. Temos de sair da cauda da Europa.

Eurodeputada do PSD

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG