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Opinião

Tapar buracos

As tendências demográficas do país são conhecidas há muito tempo. Portugal caminha para ser um dos países mais envelhecidos da Europa. E esta circunstância traz múltiplos desafios aos vários setores da sociedade, pondo mesmo em causa a sua sustentabilidade e os cânones que hoje regem a economia, a segurança social, a saúde ou a educação. Todos estes temas merecem um cuidado e uma visão ausentes da estratégia socialista, incapaz de pensar verdadeiras políticas de solidariedade intergeracional de longo prazo.

Mas hoje gostaria de me debruçar sobre um problema amplamente denunciado nos últimos anos e para o qual muito pouco foi feito: a falta de professores. Foi recentemente anunciado que, para tentar resolver a falta de docentes, o Governo vai permitir que todos os licenciados, independentemente do curso, sem formação pedagógica possam ensinar. No fundo, não é preciso aprender a ensinar e um licenciado é um professor. Estamos a falar de um cenário de regressão aos anos 80 e 90 e que põe em causa a qualidade do ensino.

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Quantas vezes se ouvem da máquina de propaganda socialista as simpáticas palavras de apreço por parte do Governo pelo papel dos professores no sistema educativo português? Quantas vezes ouvimos prometer e anunciar a valorização da carreira docente? Ora vejamos: "Educação: aposta na escola pública e na valorização docente" e "Educação avança com valorização e estabilidade da classe docente". Estes são alguns dos títulos disponíveis no "Ação Socialista", o jornal oficial do Partido Socialista. A verdade é que a pandemia pôs a nu todas as fragilidades do ensino para as quais as respostas chegaram muito tardiamente ou simplesmente não chegaram. Recordemos os variadíssimos anúncios da entrega dos computadores ou alunos que não puderam acompanhar as aulas online.

O problema do ensino português não é diferente de outras áreas. Há uma clara falta de visão e de estratégia que se consubstancia na ausência de reformas. E, perante esta ausência, há escolhas que estão a ser feitas: neste caso, acabar com a educação pública de qualidade. Não é razoável que o Ministério da Educação não reflita sobre a necessidade de oferecer melhores condições, melhores salários, como veículo para atrair mais pessoas com qualificações para a carreira docente. De facto, é mais fácil simplesmente dizer que todo e qualquer licenciado pode ser professor. Fala-se em relatórios, produzem-se estudos em catadupa sobre métodos pedagógicos e inovação pedagógica, mas a escolha é por tapar buracos e não oferecer uma solução estrutural pensada e sólida que, verdadeiramente, contemple o futuro do ensino.

A qualidade e a formação dos professores são elementos centrais para o sucesso dos alunos. Descurar estes aspetos é escolher não valorizar a carreira docente, é escolher não valorizar os alunos, é negligenciar a educação, e assim o futuro de Portugal.

*Eurodeputada do PSD

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