Opinião

Um dia normal: reflexão

Um dia normal: reflexão

Sábado, 29 janeiro 2022. Mais um dia normal de fim de semana. Dia mais relaxado, fazemos a rotina da típica pausa semanal.

Dependendo do estado do tempo, provavelmente, a agenda para hoje inclui ir às compras, ao ginásio, fazer uma caminhada na praia ou na serra, ir almoçar com amigos ou família, ficar tranquilamente em casa a desfrutar do sofá ou a organizar tudo o que o dia a dia da semana não permite. Enfim, uma panóplia de coisas com que ocupamos todos os sábados. Mas, reza a lei, este sábado é especial. Depois de duas semanas de campanha eleitoral, hoje é dia de reflexão. Hoje, não pode haver qualquer tipo de intervenção política, nem notícias, nem publicações passíveis de influenciar o seu sentido de voto. No entanto, arrisco dizer (com alguma certeza) que, tirando os mais jovens, todos já terão decidido em quem votar no domingo. Impõe-se, por isso, refletir sobre a necessidade do dia de reflexão.

Em jeito de declaração de interesses, a minha visão sobre o assunto é de profunda discordância, considerando, inclusivamente, ser um dia tremendamente inútil. Nem sempre foi assim e o contexto histórico-temporal é relevante. É verdade que Portugal tem ainda uma democracia jovem. Certamente uma democracia menos jovem do que o leste europeu, mas historicamente jovem. Mas há hoje muito mais experiência eleitoral no país do que em 1975, aquando das primeiras eleições livres. A democracia evoluiu, as campanhas e os partidos políticos também, o acesso à informação é hoje massificado, as notícias perduram e perdem-se no tempo da Internet e dos smartphones. Só que, curiosamente, os eleitores não têm tempo para ler os longos programas eleitorais que os partidos apresentam. Portanto, pergunto: hoje, em pleno dia de reflexão, se estiver indeciso vai desbravar todos os programas eleitorais, para votar conscientemente no domingo?

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Acresce também que desde 2019 é possível votar antecipadamente. Este ano de 2022 não foi diferente, sobretudo num período em que a pandemia não deu tréguas. E no exercício do voto antecipado, não houve dia de reflexão. Qual é, afinal, o propósito deste dia? Em muitos países europeus como Áustria, Bélgica, República Checa e Holanda o dia de reflexão é mais um dia de campanha. Do outro lado do Atlântico, nos Estados Unidos, a campanha eleitoral estende-se até ao dia das eleições e aos locais de voto.

Os desafios das democracias modernas são múltiplos e é tempo das instituições democráticas darem um sinal da prioridade da sua modernização. Talvez não seja má ideia começar-se pelo dia de reflexão e fazer deste dia um sábado como os outros. Normal.

*Eurodeputada do PSD

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