Opinião

Agora contra o centralismo

Agora contra o centralismo

Nos últimos 40 anos Portugal teve 13 primeiros-ministros e só um deles teve uma génese socioprofissional e política na cidade do Porto, Francisco Sá Carneiro. Nas últimas quatro décadas nenhum dos seis presidentes da República foi oriundo desta região. De todos estes importantes líderes da nação e do Estado, 17 em 19 ascenderam através de uma carreira formatada na Grande Lisboa - a outra exceção foi Carlos Mota Pinto, nado e formado em Coimbra.

Aliás, esta observação pode aplicar-se a todo o restante país, que tal como o Norte e o Porto estiveram sempre arredados do estatuto de epicentro gerador de líderes nacionais.

O panorama é ainda mais conclusivo e consolidado se analisarmos quem constituiu a "pool" de onde poderiam ter sido recrutadas alternativas. O PSD, campeão da construção e destruição de líderes, teve 15 presidentes desde 1974, tendo sido só três gerados no Portugal descentralizado - o seu fundador, Mota Pinto e eu próprio.

No PS nem sequer este tipo de exceções aconteceu, bem como no CDS e PCP, cuja lógica de subordinação à capital foi ainda mais marcada. Por vezes mitifica-se esta verdade com histórias ilusórias, como as que tentaram identificar, por exemplo, Guterres com Castelo Branco, Passos Coelho com Vila Real, Sócrates com a Covilhã ou Barroso com Valpaços. Em todos os casos em que se fez essa tentativa branqueadura, de má consciência, falava-se de um parente ali sediado, da imponderabilidade casual da respetiva mãe ali ter tido o parto ou de uma ligação educacional distante que não invalida o facto da subida na hierarquia política competitiva ter decorrido em absoluto do facto de todos se terem transladado por décadas para o Terreiro do Paço.

É evidente que qualquer cidadão escorreito deseja é que os seus dirigentes sejam competentes e realizadores. Não existe ninguém minimamente sensato que considere um primeiro-ministro ou um presidente infrequentável só porque nasceu e cresceu na Grande Lisboa, região belíssima, que a todos nos honra e que é geradora de muitos dos nossos melhores talentos. A questão não é de todo essa, mas sim a de que esta realidade estatística tem subjacente uma lógica muito preocupante.

A título comparativo e só para darmos exemplos de estados muito centralizados e com afinidades culturais com o nosso, olhemos para França, Espanha e Itália.

A Franca dos últimos 50 anos foi marcada por múltiplos chefes de Executivo completamente enraizados na França profunda. De Pierre Mauroy - maire de Lille -, a Chaban Delmas - maire de Bordéus -, de Raimond Barre - maire de Lyon -, a Alan Juppée - também ele maire da "longínqua" Bordéus. E vindo à contemporaneidade, Mariano Rajoy, primeiro-ministro espanhol, é um filho dileto da política galega e o primeiro-ministro italiano era até há poucas semanas o chefe de Executivo local em Florença.

Estas realidades estão vedadas ao atual Portugal "democrático".

Faro, o Alentejo, as Beiras, Trás-os-Montes, ou o Grande Porto podem produzir toneladas de quadros qualificados, mas a sua capacidade para ascender a patamares elevados da Administração ou do Estado é inversamente proporcional à sua visão descentralizada do mesmo Estado e à sua proximidade de uma carreira perenemente construída nos corredores do poder.

Centrando-nos no Porto, a evolução das condições viabilizadoras de centros de poder tem sido reduzida a zero nas últimas décadas.

O grande poder económico ruiu nos escombros de lutas inglórias e de projetos humilhantemente usurpados, como foi o do Banco Português do Atlântico.

A esmagadora maioria dos mais dinâmicos agentes culturais e comunicacionais tiveram que emigrar para o Sul - alguém ainda se recorda que jornalistas de referência do audiovisual, como José Alberto Carvalho, Judite Sousa ou Rodrigo Guedes de Carvalho nasceram para a sua profissão na Invicta cidade!?

Ainda há pouco mais de uma década o JN tinha ao seu lado o "O Primeiro de Janeiro" e o "O Comércio do Porto", as revistas e os semanários de dimensão nacional tinham uma pletora de colaboradores no Porto e os principais canais de televisão tinham aqui sedes exuberantes e produção própria.

Com a emigração da maioria dos grandes centros de decisão ficou um grande vazio que se acentuou drasticamente com a institucionalização de uma estrutura poderosa de economia de favores. Aquela que hoje está a ruir e que assentava nos grandes grupos monopolistas da economia dos bens não transacionáveis e na banca. Tudo isso com a bênção de um Estado promíscuo, o Estado das "golden share" e dos jogos de influência.

Oabanão que este último castelo está a levar deve motivar os mais responsáveis, entre eles aqueles que hoje representam no Norte o poder político democrático. A exemplo das atitudes reformistas que estão a dizimar o monstro oligárquico que tanto nos condicionou, é aqui necessária a coragem de perseverar num combate que permita abalar o Estado centralista. Para tal é preciso entender que tal não se pode concretizar com falinhas mansas ou com a vontade de agradar e ser aceite nos cocktails jet set onde "eles" são imbatíveis.

O Porto, o Norte e o país estão sedentos de encontrar quem os conduza com tranquilidade e firmeza nesse caminho. A coragem de ressuscitar com elevação o debate sobre a regionalização poderá vir a ser um bom recomeço.

Desse modo, com a consciência que tal não é o mais importante, talvez venhamos a ter um dia destes um primeiro-ministro ou um presidente da República nascido nas Fontainhas ou na Ribeira.