Opinião

"Cherchez la femme"

As eleições presidenciais foram condicionadas durante 30 anos pelas sequelas do período revolucionário pós-25 de Abril de 1974.A pressão ideológica dos dois primeiros anos pós-revolução, leia-se verdadeira lavagem ao cérebro quotidiana, empurraram o país para uma hemiplegia política. Tudo o que cheirasse a "socialismo" tinha uma vitória eleitoral quase assegurada.Tal era particularmente verdadeiro na escolha do presidente da República, dado o seu afastamento estrutural de responsabilidades governativas mais diretas. Prevalecia assim sempre o fator ideológico.

Assim foram eleitos e reeleitos Ramalho Eanes, Mário Soares e Jorge Sampaio. Com facilidade, quase sempre, com a exceção da primeira vitória de Soares contra Freitas do Amaral.

Cavaco Silva foi pois o primeiro presidente não socialista da segunda República.

Contudo, há similitudes no caldo de cultura com o que conduziu os seus antecessores ao poder.

Nos três primeiros casos, uma opinião pública e uma opinião publicada puxavam estruturalmente para o mesmo lado desde 1974.

Cavaco em 2005, após uma década de travessia do deserto, poderia ainda não ter uma cidadania completamente aberta a uma outra opção ideológica, mas já tinha uma opinião publicada largamente favorável.

Para isso contribuiu um inteligente e persistente trabalho de casa, que trouxe o austero e tímido primeiro-ministro do século passado para a cobiça interesseira do centralismo.

Cavaco Silva havia compreendido a realidade nacional, nomeadamente o facto do garrote do tal centralismo asfixiante ter gerado uma inevitabilidade incontornável: era praticamente impossível ter êxito numa disputa eleitoral nacional sem o suporte benevolente da opinião publicada - ou seja da "troika constituída pelos semanários da capital, os diários ditos de referência" e os "programas inteligentes da cabo". Todos em conjunto dizem diariamente e em uníssono aos portugueses o que devem fazer.

Cavaco utilizou a década de afastamento para aburguesar a sua presença junto da conhecida "brigada da mão fria", leia-se frequentadora dos "cocktails e vernissages" da capital.

Em 74 e 75 era óbvio quem condicionava, quem mandava. Agora também. Antes os revolucionários românticos e o Partido Comunista, agora o bloco central do condicionamento da débil economia monopolizada.

Face a este quadro referencial é possível prever a fatalidade, por mais injusta que seja, da ascensão inevitável de António Costa e eventualmente de Rui Rio. É também previsível que, face ao avanço de António Guterres, o seu sucesso na corrida a Belém esteja muito facilitado.

Mas há forma de contrariar esta lógica que diminui o exercício democrático e transforma a cidadania numa figuração de faz de conta?

Em meu entender há. Contudo, não pode ser "à bomba", tem de ser com habilidade e matreirice.

A contraposição alternativa deve centrar-se no mimetismo, na imagem inicial, com o adversário protegido pelo "status quo".

Num segundo momento, aplacada a hipótese do contraditório destrutivo inicial, devem evidenciar-se as qualidades que fazem essa alternativa ser comparativamente mais interessante.

Uma espécie de camaleonismo tático inteligente!

Ilustremos com um exemplo o que significam estas premissas: de acordo com este raciocínio, se voltássemos um ano atrás, o candidato ideal do PSD à Câmara do Porto não deveria ter sido eu próprio, dada a antinomia radical da tal opinião publicada. Deveria ter sido alguém também independente, empresário verdadeiro, se possível frequentador do "jet set" da Lapa.

Depois levaria umas pinceladas de discriminação positiva: jovem, bem-parecido, empresário ou académico efetivamente no ativo.

Ora é este caminho que o bloco não socialista deve desenhar com rapidez para enfrentar o desafio das importantes eleições presidenciais do início de 2015.

O candidato forte da área socialista, autoexcluído António Costa, só poderá ser António Guterres. Feita uma longa travessia do deserto, branqueada a recordação da governação que culminou na deserção de funções e no discurso do "pântano", alicerçada uma nova imagem no desempenho, aliás competente, de funções internacionais prestigiadas, aí está o candidato perfeito. A ele vai adesivar a união nacional dos interesses e a tal previsível opinião publicada.

Ou há um rápido contraste a esta lógica, ou, após uma possível derrota nas legislativas, o centro e a direita serão dizimados nas presidenciais.

É verdade que o PSD tem, na teoria, um naipe de bons candidatos. De Marcelo, o meu preferido, a Barroso e terminando em Rui Rio.

Todos têm os mesmos anátemas. Ou estão ligados a insucessos políticos recentes, ou podem ser sempre etiquetados de serem mais ou menos ligados à nomenclatura de aparelho.

Assim, salte-se para a arena do adversário. Imitando e depois fazendo a diferença.

Escolha-se alguém que ao contrário de Guterres, tenha mesmo abandonado há muito a política ativa.

Escolha-se alguém com boas provas dadas na governação, mas com iguais ou melhores já prestadas na sociedade civil.

Alguém enérgico, corajoso, mas com perfil humanista de centro-esquerda.

Alguém que faz o pleno na base social de apoio do CDS e do PSD, que pesca na área socialista e agrada ao atual presidente da República.

O país nunca teve uma mulher primeiro-ministro eleito ou presidente da República. Também por aí se vincaria uma diferença positiva.

E o PSD tem quem preencha por inteiro estes requisitos. Leonor Beleza.

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