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Opinião

Um minuto para a meia-noite

Um minuto para a meia-noite

António Guterres está longe de ser um líder político que desperta paixões. Calmo e sereno, está sempre à procura da conciliação, de ouvir mais do que de decidir. Há quem diga que até demais. Mas esta semana foi duro e conciso na análise que fez ao momento que a Humanidade vive. Estamos a "um erro de cálculo da aniquilação nuclear", afirmou, lembrando que temos tido uma "sorte extraordinária até agora", mas que a "a sorte não é estratégia nem escudo para impedir que as tensões geopolíticas degenerem em conflito nuclear".

Se na Ucrânia a situação é a que sabemos, com a lâmina do nuclear perto dos nossos pescoços, há tensões acumuladas em vários pontos do Globo. Quando escrevo estas linhas, Nancy Pelosi, líder da Câmara dos Representantes dos EUA, está num périplo pela Ásia que passou por Taiwan, enfurecendo Pequim e aumentando a incógnita sobre o que poderá acontecer naquela região do Mundo. Em simultâneo, Coreia do Sul, Japão e Estados Unidos iniciaram exercícios militares de deteção de mísseis em águas próximas do Havai, face ao avanço do programa de armamento da Coreia do Norte, porque, caso não se tenha apercebido com tanto a acontecer em vários tabuleiros, Pyongyang já realizou 19 testes de mísseis com capacidade nuclear apenas este ano.

Mais perto de casa, no último fim de semana, novo susto numa região de má memória: os Balcãs. O Kosovo, onde se encontra um contingente da NATO, voltou a tentar impor uma lei recíproca que obrigava a população sérvia a trocar as matrículas do país de origem por matrículas kosovares, acontecendo o mesmo com os cartões de identificação sérvios, e as sirenes de ataque aéreo voltaram a soar em Pristina. O líder sérvio, talvez empurrado pelo amigo Putin, deixou uma ameaça velada sobre o ressurgir do conflito na região e houve até um deputado do partido do poder, o Partido Progressista Sérvio, que afirmou, no Twitter, que poderia ser necessária uma "desnazificação dos Balcãs".

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Se juntarmos a esta panela de pressão os problemas da inflação galopante, a crise dos cereais ucranianos, a radicalização do Partido Republicano nos EUA, a ameaça da extrema-direita na Europa, o problema do fornecimento de gás e o aquecimento global, uma crise que parece ter ficado esquecida, não posso deixar de concordar com o diagnóstico de Guterres. Se no início do ano, o "relógio do apocalipse" nos dizia que estávamos a cem segundos da meia-noite, com tudo o que 2022 nos trouxe, será seguro dizer que agora nos encontramos a (menos de) um minuto de o Mundo como o conhecemos acabar.

*Jornalista

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