Opinião

"Donos de Portugal"

A constatação não vem de um perigoso comunista ou "esquerdista radical", nem sequer de algum "indignado" enfurecido, vem do respeitabilíssimo Banco de Portugal. Noticia com efeito o "Jornal de Negócios" que, no seu relatório anual, o Banco de Portugal avisa o Governo de "que o sucesso do programa de ajustamento pode ser deitado por terra pela resistência de lóbis e pela incapacidade do Governo lhes fazer face".

O jornal dá o óbvio exemplo das rendas excessivas no sector da energia, que pôs fim à promissora carreira de um secretário de Estado ingenuamente convencido de que seria tão fácil mexer nos interesses do dr. António Mexia como foi confiscar os subsídios a funcionários e pensionistas ou impor aos trabalhadores o Código dos Despedimentos. Mas a incapacidade do Governo para enfrentar alguns "donos de Portugal" (ou do Governo?) revela-se igualmente na renegociação das PPP, prevista, tal como a redução das rendas excessivas, no memorando da "troika".

O Banco de Portugal fala da "capacidade de pressão" de certos lóbis, não deixando de ser surpreendente, para quem acredita que vive numa democracia, que um Governo que tão valentemente "resiste" a 100 mil trabalhadores na rua exigindo empregos, ou a cumprir o programa com que se apresentou aos eleitores, não tenha força para resistir a um telefonema. Muito convincente deve ser a voz do outro lado da linha!