Opinião

Fome e sede de justiça

Fome e sede de justiça

Queixou-se na TVI24 a procuradora-geral adjunta Maria José Morgado, directora do DIAP, de que há "magistrados, funcionários e polícias pés-descalços e a passar fome".

Quanto a funcionários e polícias, passo. Apesar de terem, muitos deles, um salário de miséria, ainda assim vão, porém, tendo um salário, coisa de que não se podem gabar os 700 000 portugueses desempregados. Mas não custa a crer que, como diz o presidente do Sindicato dos Funcionários Judiciais, haja "colegas em alguns tribunais que estão um pouco dependentes da solidariedade".

Um magistrado a meio da carreira aufere 3 600 euros líquidos por mês, mais subsídio de compensação/renda de casa. É certo que, se os magistrados fossem pagos à hora, sobretudo na 1.ª instância, onde frequentemente se trabalha 9 e 10 horas por dia, ganhariam muito mais, mas daí a dizer-se que os há a "passar fome" não só não é crível como, num país em que o salário mínimo (dos privilegiados que têm salário) é de 485 euros, é tão afrontoso como o presidente da República queixar-se de que os seus mais de 10 000 euros de pensões não lhe chegam "para pagar as despesas".

A não ser que Maria José Morgado se refira à "fome e sede de justiça" que as magistraturas hoje justificadamente sentem, poderia perguntar-se porque é que os tais "magistrados pés-descalços", se têm fome, não comem brioches.