Opinião

Jornalismo sem lei

O escândalo das escutas que levou à extinção do "News of the World" é a ponta do "iceberg" daquilo a que certos media estão dispostos na guerra pelas audiências e pelos recursos publicitários.

O NoW terá mantido sob escuta clandestina cerca de 4 000 telefones de gente da política, do espectáculo e dos negócios, usando as gravações como fonte de notícias, obviamente não citada ou citada sob os narizes-de-cera também comuns na imprensa portuguesa: "O NoW sabe que", "Segundo fontes próximas de", "Segundo fontes fidedignas"... Serviria ainda, sempre sob a capa das fontes anónimas, de caixa de correio a numerosos políticos para divulgar informações "quentes" sobre os adversários.

Nada que surpreenda quem conheça hoje a imprensa por dentro. Ao contrário do que pode julgar quem só vê o lado de cá das câmaras de TV e dos jornais, não somos todos, jornais e jornalistas, bons rapazes. Como no Reino Unido, também entre nós a concorrência, a cultura dominante do dinheiro e da competição sem regras, juntamente com a precariedade e vulnerabilidade profissionais em que se exerce hoje o jornalismo, constituem (já o tenho dito outras vezes) um caldo de cultura propício à delinquência deontológica. A condescendência corporativa e a inoperância da auto-regulação fazem o resto.

Talvez seja injusto, mas suspeito que, se estalasse entre nós um escândalo como o do NoW, dificilmente faria manchete nos outros jornais.

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