Opinião

Perguntar ofende

Eu também recebo "clippings". No passado sábado, por exemplo, recebi dois "clippings" da TVI24, ambos com testemunhos abonatórios do omniministro Miguel Relvas que, depois da limpeza ideológica da Antena 1 na pessoa do jornalista Pedro Rosa Mendes, em que apenas apareceu envolvido de cernelha, parece agora ter-se decidido por pegar o bicho de caras.

Os jornalistas têm a ingénua convicção de que perguntar não ofende. Mas perguntar a um ministro coisas sobre as quais ele prefere não falar (por exemplo, sobre contradições em que terá entrado numa audição parlamentar), ofende e muito. Nada mais natural, pois, que o ministro ameace o(a) jornalista com um "blackout" do Governo e revelações, decerto picantes, sobre a sua (do ou da jornalista) vida privada.

Não havia assim necessidade de o deputado Matos Correia, do PSD, vir abonar que "[conhece] bem Miguel Relvas e [tem] a certeza de que ele não fez as ameaças de que é acusado; não há, por isso, motivo para que o primeiro-ministro lhe retire confiança política"; nem de o líder do PSD/Porto se mostrar convencido de que "ninguém vai imaginar que existiram pressões sobre os jornalistas" já que estes não são "susceptíveis de sofrer esse tipo de pressões, porque têm um código de ética que não lhes permite".

Testemunhas de defesa tão desastradas podem até levar a crer que o ministro fez alguma coisa repreensível.