Opinião

Cinco minutos vezes cinquenta anos

Cinco minutos vezes cinquenta anos

Encerrou-se na Universidade de Aveiro o ano comemorativo do meio século decorrido sobre o início das emissões de "Cinco minutos de jazz": um tempo radiofónico que se transformou no programa mais antigo e mais duradouro de telefonia em Portugal; e que levou o jazz a todos os portugueses, muito em particular aos que só o ouviram ou ouvem nos "cinco minutos".

Há muito de extraordinário neste programa cujo autor e apresentador, José Duarte, se manteve, inabalável, ao longo destes últimos cinquenta anos. Apesar de, como o próprio jocosamente repete, "o programa nunca ter sido aumentado", nem que fosse para seis ou sete minutos. Num tempo do efémero e do ligeiro, da facilidade com que não se quer saber ou se deixa para trás, merece o nosso maior respeito e admiração este exemplo de persistência, de autenticidade, de causa de uma vida e de partilha da alma que durante tanto tempo nos vem sendo dado. A longevidade do formato atesta bem a superior qualidade do que lá foi passando e do modo como foi passado.

Resolveu José Duarte que o seu serviço à cultura, e já seria enorme, não se quedaria por aqui. A somar ter sido professor na Universidade de Aveiro, teve a visão e a generosidade de doar a esta todo o acervo que reuniu nas largas décadas do seu encantamento com o jazz. Os acervos e espólios são fundamentais, desde logo, para a melhor divulgação da área temática a que respeitam. Contudo, através do seu tratamento profissional, classificação e arquivo, significam também muito em termos da preservação de documentos e objetos: essencial, neste caso, para o enriquecimento de um olhar histórico sobre a estética associada a uma área, tão sedutora, da música; mas, igualmente, para o conhecimento das singularidades do seu percurso, para perceber melhor outras culturas e outras gentes, para documentar a evolução social e política que, em paralelo, foi decorrendo. A salvaguarda de património, tantas vezes ameaçado por atitudes estreitas de o ver como coisa velha e sem préstimo, é determinante na construção da nossa memória coletiva.

Ao mesmo tempo, uma coleção deve apontar também ao futuro. O Centro de Estudos de Jazz, que foi possível dinamizar a partir do acervo, vem induzindo o estudo e consequente desenvolvimento do saber sobre o jazz, inclusive através de doutoramentos; e, por meio de outras ações e iniciativas, vai fazendo acontecer jazz, no tempo atual.

O valor potencial de uma nação mede-se, sempre, pela educação e pela cultura. Precisamos, por isso, de mais exemplos como o de José Duarte. Entretanto, não se esqueçam, o programa "cinco minutos" continua.

* REITOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

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