Opinião

Com o porvir na pedaleira

Com o porvir na pedaleira

Escolho hoje como tema o programa U-Bike lançado, em data recente, num dos muitos locais aprazíveis que o Campus da UTAD oferece em Vila Real. Estamos em presença de um programa que vai dotar 15 instituições de Ensino Superior com mais de 3200 bicicletas. Independentemente do impacto direto na poupança de energia, não negligenciável, que o programa permitirá, é nos aspetos mais simbólicos e potencialmente multiplicadores que me quero deter. Desde logo, os efeitos advindos da comunicação e promoção de uma mobilidade energeticamente eficiente e mais sustentável junto de comunidades jovens, abrangendo cerca de 200 mil pessoas. Mas, principalmente, as dinâmicas que, pelo exemplo e pelo hábito, se vão desenvolver nessas mesmas comunidades e que não deixarão de contagiar outras que lhes são próximas.

Porque há ainda um grande caminho a percorrer nesta matéria: exportamos oito vezes mais bicicletas que aquelas que adquirimos, internamente, para o nosso próprio pedalar. É verdade que este indicador contém um fator positivo: a capacidade do nosso país - que é já o terceiro fabricante europeu de bicicletas - de vender lá fora. Mas ele não deixa de ser determinado, também, pelo facto de menos de um por cento dos portugueses usar velocípedes sem motor como meio de transporte. Uma estatística que nos coloca longe de países e culturas com que nos gostamos de comparar.

O U-Bike não deixará, igualmente, de induzir ou de contribuir para acelerar transformações na mobilidade urbana, pela relação que as universidades e os institutos politécnicos envolvidos têm com as 14 cidades onde se situam. Sabemos que o tráfego automóvel é o maior fator de poluição das cidades. Sabemos, ainda, que para pequenas distâncias as deslocações em bicicleta são muito mais eficientes. Se somarmos a isto o aumento na fluidez do trânsito, as questões de saúde associadas à prática regular de exercício físico e a qualidade de vida resultante destes vários aspetos, percebemos o imperativo dessas alterações na mobilidade citadina e na reorganização do espaço urbano que as possibilite.

Para isso, é preciso muito mais do que ciclovias. Tem que haver bicicletas partilháveis. Temos que instalar lógicas intermodais que permitam a comutação com outros meios de transporte, nomeadamente o comboio; que assegurar meios eficazes de manutenção de bicicletas; que prover capacidade de parqueamento e, nalgumas situações, de armazenamento temporário de bicicletas. Temos que ter corredores onde, efetivamente, se possa viajar com conforto e segurança; o que é indissociável do cumprimento do Código da Estrada e do desenvolvimento de atitudes de respeito e convivência entre automobilistas e ciclistas. Acredito que só lá chegaremos quando cada um de nós, como é desejável, tiver tanto de ciclista como de automobilista. Porque, finalmente, o lugar natural da bicicleta é a estrada!

Precisamos, ainda, de atuar a montante, garantindo que a sensibilização começa na idade mais tenra e que todas as crianças aprendem a andar, e a gostar de andar, de bicicleta. O programa "O ciclismo vai à Escola" que Anadia pôs de pé, com a Federação Portuguesa de Ciclismo e o Clube de Ciclismo da Bairrada, é um excelente exemplo. Aliás toda a Região de Aveiro tem condições para evoluir muito rapidamente neste domínio da "mobilidade suave". Em particular, Aveiro, partindo da sua tradição de Bugas; Oliveira de Azeméis, com o seu sistema de partilha de bicicletas; Águeda e Ílhavo terão que andar, cada vez mais, numa roda-viva com a sua Universidade.

Nunca foram tão apropriadas as palavras de Alexandre O"Neill, agora que passaram 30 anos sobre a sua morte: "O homem que pedala...tem o porvir na pedaleira".

PUB

REITOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG