Opinião

Circularização de comportamentos

Omote, hoje, é a constatação de que mais de 60% dos óleos alimentares usados são desperdiçados. Duma assentada criam-se problemas nas redes de esgotos e nas estações de tratamento, causam-se prejuízos nos ambientes marinhos e perde-se a oportunidade de valorizar um resíduo, reutilizando-o na produção de biodiesel. Com a agravante das empresas que se dedicam àquele negócio terem de importar o produto base de outros países. É um caso que exemplifica a necessidade de alterar atitudes, de pessoas individuais e de agentes públicos, em matéria de reciclagem.

É bom ter presente que se estimam em mais de 60 mil milhões de toneladas as matérias-primas necessárias para alimentar a economia global; e que só 7 % dessa quantidade é reutilizada. A pressão sobre a exploração que isso acarreta não é compatível com a natureza limitada dos recursos naturais. Há que proteger o que é único, o que é finito. E há que atender aos tempos e ritmos próprios da regeneração da natureza. Ou seja, num momento em que constatamos que há ainda muitíssimo a fazer em matéria de reciclagem, percebemos já que isso, por si só, não chega. Se pensarmos que em 2030, ano tão próximo, há que prover bens e trabalho para uma classe média superior a 3 mil milhões de seres humanos à escala planetária; e que essas pessoas, natural e legitimamente, têm anseios de estilos, padrões e qualidade de vida comparáveis aos que existem hoje na UE e noutras partes do Mundo, vislumbra-se que o desafio à nossa frente é gigantesco.

Mais do que proceder à, imprescindível, reciclagem de produtos quando a sua vida útil acaba, impõe-se reduzir a pressão sobre o nosso capital natural, única maneira de garantirmos a sua preservação. Mantendo produtos por mais tempo, prolongando o seu uso e o seu valor económico. Multiplicando lógicas de partilha de bens que impliquem maior venda de serviços mas menor quantidade de produtos. Generalizando práticas de recuperação e reutilização de tudo o que é produzido, aproximando-nos da situação de desperdício nulo.

Mais do que de crescimento verde ou de economia azul, é de economia circular que precisamos. O que implica uma transição, naturalmente difícil, para uma dinâmica económica que integre os ganhos ambientais como parte dos ganhos financeiros; isto é, em que se tome em conta o valor real do capital de recursos naturais efetivamente gasto. Iniciativas como o recente plano de ação para a economia circular e projetos pioneiros envolvendo "clusters de competitividade" são bem-vindas. Seria muito positivo para a indústria portuguesa estar na vanguarda deste processo. Essencial é, comunicando bem, promover a compreensão pública do que está em causa, levando a que cada um faça as escolhas mais adequadas e ajude a que se privilegiem essas opções na definição das políticas públicas. É o que eu apelidaria, perdoem-me o neologismo, a circularização dos comportamentos.

REITOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO