Opinião

Sinais de maio

Este mês tem sido pautado por acontecimentos e referências muito significativos. O meio século passado sobre o maio de 68, janela de abertura para um nova era que tanto marcou a minha geração. A partida de três vultos que deixam obra profunda e preencheram uma parte do quotidiano de tantos de nós: António Arnaut, lutador de inúmeras causas e personagem central na edificação do Serviço Nacional de Saúde; Júlio Pomar, pintor e artista integral, nome dos maiores na cultura; e Philip Roth, escritor americano de primeira água e humanista de enorme fôlego. E os 20 anos do Oceanário que é um símbolo da perpetuação da Expo 98, obra notável na demonstração da capacidade inventiva e de empreendimento dos portugueses.

Escolho, porém, um tema menos mediatizado: o IV Encontro de Reitores Universia que, na passada semana, reuniu líderes de cerca de 700 instituições de Ensino Superior, representando 26 países. Abraçar o mundo digital e gerir, quer o seu impacto no formar e aprender, quer as consequências que dele decorrem para a vida de todos nós. Assumir a colaboração em rede entre universidades e diferentes setores da sociedade como algo essencial na resposta aos grandes desafios como sejam a diminuição das desigualdades e o desenvolvimento sustentável. Desenvolver conhecimento interdisciplinar que compatibilize os avanços tecnológicos e científicos com valores humanos. Tornar percetível à sociedade que a investigação aporta valor, evidenciando o que se faz, por quê e para quê. Promover, imperativamente, uma educação humanística, competências transversais, o sentido crítico e o respeito pela ética, a par da mobilidade intercultural, enquanto fatores determinantes, também para a empregabilidade. São tudo conclusões que enformam a declaração de Salamanca que saiu do encontro.

As universidades portuguesas já têm estas preocupações na sua agenda e nalgumas das suas práticas, e isso ficou bem patente em Salamanca. Precisamos de universidades que sejam capazes, mais do que adaptar-se, de antecipar e de liderar a mudança. Uma ideia que o presidente da República, prestigiando muito Portugal na sua alocução de abertura, acentuou preconizando "políticas públicas (de educação) que não mudem com cada Governo, com cada legislatura, com cada orçamento", que tenham "horizonte de futuro". Até porque, como bem referiu Ana Botín, "os extremismos e populismos combatem-se com mais e melhor educação, não com menos".

PROFESSOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO