Opinião

Saber para além da tecnologia

Saber para além da tecnologia

Vivemos num tempo e em ambientes muito dominados pelos desenvolvimentos tecnológicos. Vivemos, aliás, fascinados com isso: nada mais natural! Sabemos, igualmente, que há hoje uma procura maior de competências nas áreas das Ciências, Tecnologias, Matemática e Engenharias, criando a perceção em quem estuda que se escolher essas áreas terá maiores oportunidades de inserção no mercado de trabalho. Destas realidades até à ideia de que as Ciências Sociais são ciências menores e que as Artes e as Humanidades são apenas importantes enquanto passatempos e "elementos de cultura" vai um pequeno passo.

Nada mais erróneo e perigoso! Porque, cada vez mais, o empurrar das fronteiras do conhecimento e o aparecimento de novas invenções advêm da combinação de vários saberes, do uso de lógicas transdisciplinares ou da utilização cruzada de metodologias típicas de outros setores. Porque, no quadro de imprevisibilidade daquilo que nos espera, há que estar ciente que a procura de soluções, para os desafios societais e para as grandes questões que a humanidade enfrenta, exige abordagens sistémicas e integradas: na saúde, na indústria, nos serviços e no próprio setor primário, no ambiente e na gestão sustentável do planeta, na maneira como ordenamos as nossas cidades, em múltiplos aspetos da nossa vida.

Porque, mesmo na empregabilidade, estamos hoje bem conhecedores da importância crescente de outras competências, para além do que é nuclear numa profissão: capacidade de pensamento crítico, sensibilidade para outras culturas, cosmopolitismo e mundivivência, domínio de várias línguas, competências comportamentais são, mais e mais, apreciadas pelos decisores. Porque, sendo razão, dimensão social e emoção facetas indispensáveis na vida de cada indivíduo, a própria criatividade precisa de uma mescla de saberes interligados. Porque a apropriação contínua do nosso legado histórico, o manter viva a nossa memória coletiva, é fundamental para a compreensão de quem somos, do que é o ser humano.

Precisamos, por isso, de todos os domínios, da Filosofia, das Artes, da Literatura e da Linguística, da História, de todo o conhecimento acumulado. O progresso não vem só da Ciência e da Tecnologia. Sem parte de uma delas, que fosse, não só a Humanidade se tornaria mais pobre, mas ficaríamos, todos, amputados de uma ferramenta essencial para a construção dos cenários necessários para ir evoluindo adentro desse futuro imprevisível à nossa frente.

* REITOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

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