Opinião

Passado e futuro como prendas

Passado e futuro como prendas

Não, não se trata de qualquer título figurativo: é mesmo de potenciais presentes que quero falar, na forma de dois livros saídos este ano. O primeiro ficamos a devê-lo a esse grande comunicador e cinéfilo, o Mário Augusto. A sua "Sebenta do tempo" transporta-nos de volta a períodos da nossa meninice, da nossa adolescência, da nossa entrada na vida adulta.

Lembranças guardadas do que se viveu e com quem se viveu; sendo construtores da nossa própria imaginação, em espaços que hoje nos parecem sempre maiores do que o seu tamanho real; num percurso em que nos fomos familiarizando, primeiro através "da grande caixa" e depois por meio de novos artefactos, com a gente e o Mundo virtual; envoltos na transcendência de isto e de tudo o mais que nos foi acontecendo...

O livro pretende ser "um resumo das nossas lições de vida, um caderno de rascunhos e exercícios de memória". É uma viagem escrita por alguém da geração de 60; mas onde a gente mais antiga, como eu, se revê; e com a qual as gerações de 70, e mesmo de 80, têm ainda muitos pontos de contacto. Porque muitas das referências principais não se alteravam tão depressa, então.

Desse ponto de vista, o de ilustrar a aceleração da história, será também apelativo e útil para quem, de entre os mais novos, o ler. Pelo documentário gráfico que constitui, demonstrativo da evolução de modas, costumes, design, estilos de vida; pela evidência das dificuldades por que passaram aquelas gerações, num país muito pobre em que os brinquedos escasseavam mas onde o pouco nos permitia divertir muito; pela descoberta que pode ser feita de como foram demoradas as conquistas do que hoje se dá por adquirido...

"A memória é a consciência inserida no tempo", escreveu Fernando Pessoa. Mas a perceção dos tempos que estão para vir, essa antecipação consciente do futuro é igualmente determinante da boa relação connosco e da construção do Mundo que vamos transmitir. Por isso, vale muito a pena ler "Da leveza. Para uma civilização do ligeiro", o segundo livro que saliento. Nele, o filósofo Gilles Lipovetsky prossegue o seu caminho de caracterização da hipermodernidade. E fá-lo sem tomar partido, apologético ou condenatório, seja política ou moralmente. Como é aliás seu timbre. A leveza é, tão simplesmente, "...um princípio de organização social, um valor estético e tecnológico, que... adquiriu uma importância fundamental". A tendência para o ligeiro apresenta-se-nos com uma celeridade vertiginosa, nos campos mais diversos: na estética, nos comportamentos, na relação com o corpo, na economia...

Tudo tem o seu tempo: o nosso, que é o que nos projeta no futuro, parece ser inseparável dessa irreprimível leveza que abre perspetivas ilimitadas em todos os domínios, como força transformadora que reconfigura a nossa vida. Não, naturalmente, sem efeitos paradoxais. A ponte e o contraponto com a obra do Mário Augusto - muito a propósito, um livro que aborda bem o ligeiro - são manifestos. Boas leituras para uma boa quadra.

* REITOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

PUB

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG