Opinião

Portugueses e espanhóis com a mesma agenda?

Portugueses e espanhóis com a mesma agenda?

Apesar da evolução positiva verificada nos últimos anos na cooperação ibérica em matéria de ciência e Ensino Superior, existe ainda um enorme potencial desaproveitado. Como se evidencia, por exemplo, ao nível de publicação conjunta por investigadores portugueses e espanhóis, embora esta venha aumentando exponencialmente; ou, de um modo ainda mais claro, pela mobilidade de estudantes entre os dois países que se situa em números absolutamente incipientes.

Reconhecida a importância do saber no desenvolvimento e constatado o facto que, no quadro europeu, os países ibéricos contribuem para a riqueza produzida abaixo da proporção demográfica que detêm, urge trabalhar em conjunto para promover mais formação com padrões elevados, para atrair mais talento e para, com as empresas, criar mais emprego qualificado.

Importa, neste âmbito, ter consciência das oportunidades que, num contexto de crescente incerteza global mas também de multipolaridade, advêm de situações como o Brexit ou como o anunciado grande desinvestimento dos Estados Unidos em ciência.

Importa, igualmente, construir posições comuns, mais fortes e incisivas, que permitam alterar tendências da União Europeia que favorecem a concentração de recursos e a dicotomia entre investigação fundamental e aplicada, levando, também aqui, a uma concentração de incentivos nas grandes empresas; ou seja, posições que contrariem o atual estado das coisas numa Europa a divergir. Como é de relevar o aproveitamento de complementaridades existentes entre os dois países, em particular no acesso dos investigadores a grandes infraestruturas; o desenvolvimento conjunto de respostas aos grandes problemas societais, necessariamente multidisciplinares e para os quais todas as áreas do conhecimento são determinantes; o impulsionar da cooperação mediterrânica, nomeadamente através do programa PRIMA (Primeira Parceria de Investigação no Mediterrâneo), tão significativo também para a paz; ou, ainda, o estabelecimento de estratégias concertadas para os territórios de fronteira, muito deficitários, como sabemos, no que concerne a índices socioeconómicos e de competitividade.

São estas, entre outras, as razões que levaram os reitores espanhóis e portugueses a elaborar este fim de semana, na UTAD, uma Agenda Ibérica do Conhecimento e do Ensino Superior; a qual se crê possa ter já alguma tradução nas declarações a sair da Cimeira Luso-Espanhola que decorre em Vila Real. Uma agenda que será, proximamente, apresentada no Parlamento Europeu e ao comissário Carlos Moedas; e que se espera potencie a presença ibérica na Europa e permita fazer convergir os sistemas de Ensino Superior dos dois países, noutras geografias e noutros quadros, alargados, de intervenção.

* REITOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

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