Opinião

Um verão que se escoa

Um verão que se escoa

Quatro pinceladas mais fortes compõem o verão tal qual o vi e vivi. Uma primeira sobre o turismo, cujo crescimento de dois dígitos, de há quatro anos para cá, teima em se aprofundar. O setor, no final de 2017, estará muito próximo de representar 20% do total das exportações de bens e serviços. O nosso país tem mar e praia, tem a hospitalidade e simpatia das nossas gentes. E Portugal está na moda, é óbvio. Porém, há que reconhecer que não é só isso. O património histórico e cultural. A comida e os vinhos de primeira grandeza. As iniciativas de desporto e aventura. O turismo de "experiências". Os estudantes internacionais e o turismo científico. As visitas dos emigrantes e seus amigos. Os estrangeiros que compram propriedades. O turismo de saúde. Até, turismo militar. São tudo vetores que têm vindo a ser trabalhados e que contam. Há mais turistas nas cidades. Há-os no litoral e, cada vez mais, no interior. Reduzir tudo a um simples fenómeno conjuntural não é ser objetivo. Prefiro pensar que é na diversificação que está o proveito; e que será com ela que se ultrapassará a questão da sazonalidade.

Uma outra pincelada traduz a proliferação, igualmente rica em diversidade, das ofertas culturais e desportivas em julho e agosto: propostas para todos os gostos! Manifestações musicais de muitos géneros, incluindo música erudita. Festas populares. Mostras de produtos regionais e feiras. Festivais de cinema e de outras artes. Os museus, de variada índole, cada vez com melhores "discursos" expositivos. A Volta a Portugal em bicicleta que trouxe associada a Volta ao Conhecimento. Outras ofertas, nomeadamente do programa Ciência Viva. O país fervilha de atividade, mexe-se, e tal não pode ser interpretado em dissociação com o país turístico.

Tudo isto vem acontecendo e continua a acontecer num cenário de fogos atrás de fogos. Fogos da nossa vergonha pelo que representam de falta de planeamento, de ordenamento, de prevenção; num país demasiado conformado, dependente de interesses de grupos, refém de lógicas de lucro imediato e, portanto, incapaz de impor as políticas públicas adequadas. Fogos da nossa vergonha pela cobertura televisiva que insiste em mostrar aquilo que seria essencial não mostrar, apelando, vezes e vezes sem conta, aos sentimentos mais primários e irracionais; e travestindo notícias em cenas de "big brother". E não existe regulação? A floresta responde por mais de 10% das nossas exportações, molda mais de um terço da nossa paisagem e é essencial na captura de carbono. Há que tratá-la muito melhor!

Estes acontecimentos ocorrem, também - é a última pincelada - num Mundo global com os benefícios e a exaltação que daí advêm, mas também com os problemas e os medos que se vão gerando. Temos que vencer o medo e aproveitar este Mundo fantástico, enquanto caldeirão de culturas que, em conjunto, nos enriquece a todos.

* REITOR DA UNIVERSIDADE DE AVEIRO

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