Opinião

O Porto e o Pritzker

OS "NOSSOS" Pritzker não existiriam sem o génio de Siza e de Souto de Moura, mas ainda menos sem o Porto e o caldo de cultura que fez nascer na cidade uma tal "escola".

Eduardo Souto de Moura é o Prémio Pritzker de 2011, uma espécie de Nobel da Arquitectura. Antes, em 1992, já Álvaro Siza Vieira havia sido igualmente distinguido assim como, não há muito tempo (2000), também o foi Rem Koolhaas, o holandês que, em 1998, concebeu a Casa da Música. Quer isto dizer que o Porto tem, neste momento, obras de três prémios Pritzker. Não sei se é, ou não, a única cidade no Mundo com tal concentração destes prémios mas, para o caso, tanto faz. O facto é que o nome da cidade está, agora, ainda mais ligado à Arquitectura como uma das "artes" que nos últimos anos mais se afirmou e, consequentemente, mais se mediatizou. É certo que nem sempre pelas melhores razões, mas quase sempre com os melhores resultados. Em qualquer caso, o Porto começa mesmo a ser um caso nesta coisa ancestral que é a "arte de construir".

Desde logo, porque a sua escola de arquitectura há muito que ganhou estatuto de grande escola em todo o Mundo. Claro que muito deve aos dois Pritzker que nela se formaram e nela ensinam ou ensinaram. Mas não só. Estas coisas da notoriedade em áreas em que pouco conta a pura expressão da individualidade, quase nunca acontecem por acaso. O que acontece é que nem sempre temos consciência da razão de ser do facto.

Com efeito, Portugal, e o Porto muito em particular, começam a ganhar importância internacional no campo da arquitectura ainda antes do 25 de Abril, com a acção de duas personagens que a erosão dos tempos foi deixando na penumbra mas que não podem deixar de ser agora referidos. São eles Carlos Ramos e Nuno Portas. Carlos Ramos, arquitecto de origem portuense mas lisboeta de formação, foi o director da Escola de Belas-Artes entre os anos 40 e 60 do século passado e lança verdadeiramente o que vem a ser a "escola do Porto" e Nuno Portas, igualmente de origem nortenha mas também de formação lisboeta, foi a chave que, então, abriu uma das portas da Europa, que já então era a cidade de Barcelona, à nascente "escola do Porto" e, muito em particular, a Álvaro Siza Vieira, cujas primeiras obras acabavam de causar viva impressão nos meios da exigente cultura arquitectónica que eram Barcelona e Milão.

Depois, Portugal e a sua arquitectura e, muito em particular, o Porto e a sua escola, conquistam espaço internacional com o designado "processo SAAL", a que não podem deixar de associar-se os arquitectos já "consagrados e internacionalizados" e a que é obrigatório acrescentar o nome incontornável de Fernando Távora como mestre que faz a ligação entre todos. Souto de Moura, então em fim de curso, integra, ainda como estudante e à semelhança de todos quantos estudavam então na "sua escola", as equipas de trabalho que, durante um dos períodos mais profícuos da história da cidade e da arquitectura (1974 a 1976), produzem uma obra que viria a afirmar-se como exemplo notável de empenhamento cívico, capacidade profissional e valor pedagógico.

E tal foi a consistência deste "arranque" que só um descalabro poderia ter deitado por terra todo este "investimento". Com efeito, e felizmente, não só a experiência não se perdeu como serviu para alicerçar o que foi a segunda fase da já designada "escola do Porto", que se caracterizou pela fixação dum modelo de ensino/aprendizagem alicerçado no contexto real sem estereótipos, a fixação dum método de trabalho baseado na racionalidade e na criatividade e a adopção duma praxis que, por seu lado, não podia dar outros frutos que não fossem os mais diversos reconhecimentos "universais" como foram e são, entre outros, também, os Prémios Pritzker.

Siza Vieira e Souto de Moura confundem-se com a "escola" que frequentam, tal como esta se confunde, hoje, com a cidade que os reconhece e na qual eles próprios se reconhecem. Ainda que no meio de incompreensões, tensões e, por vezes, até, alguns desencantos. Mútuos. Em todo o caso, o facto é que os "nossos" Pritzker não existiriam sem o génio de Siza e de Souto de Moura, mas ainda menos sem o Porto e o caldo de cultura que fez nascer na cidade uma tal "escola".

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