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"Adultescência"

Todos os pais querem, sempre, o melhor futuro para os filhos. Todos, mesmo quando chega a altura em que o rebento está a ganhar tamanhas raízes que nem um bulldozer é capaz de retirá-lo do ninho. Foi mais ou menos o que aconteceu aos pais de um norte-americano, num caso que foi dado a conhecer ao Mundo esta semana e que gerou buzz nas redes sociais.

Michael Rotondo, de 30 anos, teima em não sair de casa, mesmo depois da insistência da família para abandonar a residência. Os progenitores começaram por enviar cartas formais ao filho, com apoio de um advogado, exigindo-lhe que saísse da habitação. Sem sucesso, ofereceram-lhe mais de 900 euros para o ajudar a procurar outro sítio para viver, mas nem assim conseguiram demovê-lo. Acabaram por recorrer à justiça e o caso foi parar ao Supremo Tribunal de Nova Iorque. Michael Rotondo perdeu. Corou quando o magistrado o aconselhou a recorrer ao Airbnb para encontrar alojamento, mas não deixou de mostrar a sua indignação, até porque "lavava a sua própria roupa".

Arranjar emprego, sair de casa, casar e ter filhos há muito tempo, felizmente, que deixou de ser um indicador que mede o sucesso de uma vida. O problema é quando a maior parte dos jovens não tem qualquer motivação para deixar a casa dos pais. Segundo o Gabinete de Estatísticas da União Europeia, os jovens portugueses só deixam a residência familiar depois dos 29 anos, o que constitui o sétimo valor mais elevado da UE. Enquanto nos países nórdicos - os jovens saem de casa aos 21 anos - uma entidade empregadora desconfia de um candidato que ainda resida com os pais, a luta na maior parte da Europa contra a emancipação é travada com apoios ao arrendamento, incentivos ao empreendedorismo e descontos nos transportes. Mas, o fenómeno do prolongamento eterno dos estudos e das dificuldades de acesso ao mercado de trabalho não pode ser catalogado como comodismo da parte dos jovens que, sem perspetivas de futuro, naturalmente não arriscam uma pior qualidade de vida. O tema da "adultescência" tem de merecer mais atenção e imaginação das agendas políticas. No Reino Unido, por exemplo, a contratação partilhada, em que os jovens pedem e pagam um empréstimo consoante a percentagem que adquirem do imóvel, já está em prática.

Está claro que os jovens de hoje não são iguais aos do passado, mas ter emprego e casa ainda é um objetivo de vida.

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