Opinião

Bono, um holofote pela Europa

Não queremos a Europa de Viktor Orban, que construiu uma barreira de arame farpado ao longo da fronteira da Hungria com a Sérvia e a Croácia para impedir a entrada de imigrantes. Também não queremos a Europa de Matteo Salvini, o vice-primeiro-ministro italiano que se tornou o "herói" do governante húngaro, ao defender fronteiras contra a imigração. Nem queremos que a Europa seja um palco de ódio e de caçadas coletivas de estrangeiros, como aconteceu no leste da Alemanha.

É esta Europa que rejeitamos. Nós e Bono, o vocalista dos U2, que aproveitou o início da nova digressão da banda irlandesa para sair em defesa de uma Europa "com sentimento". Num texto escrito para um jornal alemão, Bono expõe a sua nova causa e elogia a abertura de Angela Merkel ao acolhimento de imigrantes. E promete no concerto desta noite, em Berlim, agitar uma bandeira da UE "grande, brilhante e azul" para colocarmos "os corações nesta luta".

Bono sempre nos habituou às suas batalhas religiosas e sociopolíticas. De Sunday Bloody Sunday, tema sobre o massacre de 14 manifestantes católicos, até à medalha que recebeu por chamar a atenção para a pobreza em África, tem aproveitado bem a fama para ser o holofote de problemas mundiais.

Mas será que este novo ativismo é genuíno ou é fruto de marketing? Pouco importa. A luta contra os nacionalistas e extremistas merece sempre ser aplaudida de pé. E Bono não ocupa o espaço mediático apenas nas grandes catástrofes, onde outros vendem a sua hipócrita solidariedade. Escolheu apoiar a Europa e segurar uma bandeira que não é sentida por ninguém. Mas agitá-la no palco dos U2 pode ajudar a abrir a caixa de Pandora desta Europa fragilizada. Até pode nunca ganhar o Nobel da Paz (já esteve indicado em 2003), pode até ter uma agência de comunicação a fazer bem o seu trabalho, mas seguramente que os U2 continuam a fazer a diferença e a mostrar que a música não é, nem nunca foi, apenas música. A música pode mudar o Mundo. Neste caso tenta mudar a Europa.

* SUBDIRETOR