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O gelo dos VIP

A dificuldade de passar a mensagem da importância do combate às alterações climáticas é quase como tentar explicar a um estrangeiro o significado de saudade. É abstrato. Não existe porque não se vê. Mas sente-se. Ora está calor, ora está frio. Ora chove, em pleno verão, ora temos um sol abrasador, em pleno inverno. Isto de dizermos que o estado do tempo já não é o que era remete-nos para a perceção mais rudimentar da variação do clima à escala global.

Para Donald Trump, naturalmente, o aquecimento global não é importante. Até porque nunca lhe faltará o ar condicionado. Assim, se não vê, se não sente, não interessa. Rasga-se, portanto, o Acordo de Paris e vamos lá virar as costas à rainha de Inglaterra, falar de "fake news" e entreter o povo com mais uma série de idiotices.

Mas quando um icebergue de quase 6,5 quilómetros de extensão se solta de um glaciar na Gronelândia e ameaça a população de uma vila, as sensações dão lugar a uma ameaça muito visível. E esta torna-se uma mensagem bem mais impactante de que uma palestra de Barack Obama para um universo restrito de pessoas à dimensão do Coliseu do Porto.

Se Donald Trump fica muito mal ao abandonar o Acordo de Paris, não devia o Nobel da Paz deixar que a sua mensagem chegasse a muito mais do que três mil convidados VIP confinados a um espaço? O impacto de uma intervenção do popular ex-presidente dos EUA não seria mais benéfica para o ambiente? Na plateia do Coliseu, quantos verdadeiramente terá atraído para a causa?

Segurar a bandeira das alterações climáticas deveria, acima de tudo, ser a responsabilidade social dos maiores líderes do Mundo, Trumps e não Trumps. Estar no sofá a dizer que Donald Trump é um ogre e sair de casa para aplaudir Barack Obama de nada serve para travar o gigantesco icebergue que se aproxima de todos nós.

* SUBDIRETOR