Opinião

Solidariedade não é dar restos

A decisão tomada por muitos automobilistas de fazer uma perigosa inversão de marcha na zona do Montijo para fugir ao fumo de um incêndio em Palmela, no sábado passado, na A12, prova que o Estado falhou em Pedrógão Grande como nunca tinha falhado e que os portugueses ainda não confiam na eficácia dos planos de emergência.

"Só quem passou por elas é que sabe." A frase parece datada, mofenta e que só faz sentido se for dita pelos nossos avós. Mas esta semana, talvez até em silêncio, todos nós visualizamos de novo a estrada da morte que liga Castanheira de Pera a Figueiró dos Vinhos e recordamos as aldeias que choraram centenas de mortos após as tragédias de junho e outubro que deixaram o país em estado de choque. Todos tivemos um déjà-vu.

O inferno que tomou conta dos gregos, é, por isso, também nosso. É no presente porque ainda ninguém esqueceu o passado.

Nos últimos anos, gregos e portugueses têm tantas vezes estado na mesma linha de dor, de tristeza e também de esperança. A troika, as dificuldades e inseguranças governativas, os desafios de voltar à vida normal, o boom turístico e agora os fogos assassinos. Demasiadas semelhanças que, só por si, justificam qualquer ajuda que possamos prestar. Na Suécia, na Grécia, em qualquer outra parte do Mundo.

Houve nas televisões e nas redes sociais quem tivesse questionado e colocado em causa o preço de ceder meios aéreos portugueses para ajudar a combater incêndios noutros países, quando poderão ser necessários em Portugal. E recebido aplausos e likes por isso. Não me lembro, porém, de terem perguntado quanto custou a ajuda que outros países nos deram no passado quando mais precisamos. E a memória não pode ser tão curta que não entenda que a solidariedade não é dar o que nos sobra, mas sim dar quando é realmente preciso.

*SUBDIRETOR