Opinião

Coligações confusas

Coligações confusas

A Esquerda vota com a Direita, a Direita vota com a Esquerda. A votação do Orçamento do Estado pode ter deixado alguns portugueses confusos.

Não foi fácil perceber quem votou o quê e mais complicado será, já em campanha eleitoral, perceber quem tem legitimidade para reclamar que "esta medida é nossa!".

As chamadas coligações negativas até conferem ao OE um aspeto mais democrático e plural, mas criam algumas contradições ideológicas. Por exemplo, o chumbo da Esquerda ao alargamento dos manuais escolares gratuitos ao ensino privado é normal. Mas a união de comunistas e bloquistas à Direita para chumbar o aumento de impostos sobre a compra de carros de empresas deixa-nos a pensar.

Pelo caminho ficou também a boa intenção da Esquerda de alargar a diminuição do IVA na eletricidade, nomeadamente no que toca às potências contratadas. E o PS votou com a Direita.

A confusão das votações inclui, naturalmente, o tão falado "bailado dos forcados". As propostas do PSD, PCP e CDS-PP para a descida do IVA nas touradas foram aprovadas. Note-se, com o aval de 43 deputados do PS.

O mundo do futebol também ficou baralhado. Em termos fiscais, os deputados colocaram o espetáculo desportivo no mesmo patamar da pornografia.

Mas o distúrbio político ainda toma proporções mais estranhas quando o Parlamento aprova medidas sem sustentação técnica. O "erro" das vacinas, chamou-lhe assim a Ordem dos Médicos à integração de três novas vacinas do Programa Nacional de Vacinação sem que para isso tenham ouvido a Direção-Geral da Saúde, é mesmo de difícil compreensão.

A última temporada da "Guerra dos tronos", em que o "winter is coming", ainda não chegou. Mas já assistimos à "Guerra de S. Bento" e às "eleições are coming". Agora, é só escolher o lado da muralha.

*DIRETOR-ADJUNTO