Opinião

Não há greves boas e más

Não há greves boas e más

Insinuar que a greve dos enfermeiros possa estar a ser financiada pelo setor privado da saúde, através de uma plataforma de crowdfunding, só pode ser um ato de desespero de quem perdeu a exclusividade de controlar a luta dos trabalhadores nas empresas e nas ruas.

Não há greves boas e más. A inédita campanha dos enfermeiros para financiar a greve dividiu partidos políticos e há quem a considere uma subversão da prática sindical. Mas o recurso ao crowdfunding não é mais do que uma pequena resposta à falta de resultados das lutas convencionais. Concorde-se ou não, o modelo é fruto de uma nova dinâmica social que ultrapassa as estratégias traçadas pelos tradicionais profissionais das greves que, neste caso, até perderam o protagonismo para a líder da ordem profissional da classe.

Na mesma linha, as duas maiores centrais sindicais desmarcaram-se naturalmente do protesto dos "coletes amarelos" marcado para hoje em vários locais de Portugal. A CGTP alega que movimentos desta natureza não respondem aos problemas dos trabalhadores e das populações e teme que a ação desencadeie violência. Já a UGT não sabe quem está por trás do "muro de betão". Mas o que ficou por dizer é que os "coletes amarelos", em França, na Bélgica ou em Portugal, não são mais do que o resultado do fracasso de quem tem representado ao longo dos últimos anos, muito mal, os trabalhadores junto dos respetivos governos.

E pior é saber que estes movimentos de ideologias perigosas se aproveitaram da inércia e da ineficácia sindical. Em França, já vergaram um presidente de forma politicamente trágica e com consequências que toda a Europa ainda vai conhecer.

É urgente que as organizações sindicais se reinventem, antes que todos os trabalhadores vistam um "colete amarelo" sem sequer saber porquê.

*Diretor-adjunto

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