Opinião

O centro de emprego governativo

O centro de emprego governativo

Diz a Confederação de Comércio de Portugal (CCP) que trabalhar aos domingos está a fazer mal às famílias. Um conselho que António Costa deve ter em conta face aos laços familiares no Governo.

É verdade que a nota da CCP diz respeito aos hipermercados que não abdicam de abrir ao domingo, o que classifica como "um problema da sociedade", mas bem podia estender-se a este "centro de emprego governativo" para filhos e filhas, maridos e mulheres, cunhados e primos.

Com a demissão de secretário de Estado do Ambiente, António Costa quer fazer os eleitores acreditar que não tolera este tipo de promiscuidade. E, de alguma forma, quer minimizar o impacto negativo que a endogamia no Governo terá nos resultados eleitorais. Vai a tempo?

A demissão do secretário de Estado do Ambiente por ter nomeado um primo era inevitável e terá deixado António Costa no mínimo corado. Recentemente assegurou que não tinha visto "um único exemplo de alguém que tivesse nomeado um membro da sua própria família".

É tarde. Os outros exemplos de promiscuidade entre política e família não chegaram para que António Costa visse o óbvio. Foi preciso bater no fundo. E mesmo com uma péssima imagem passada para a opinião pública, o primeiro-ministro voltou a minimizar o tema no debate quinzenal no Parlamento.

Não chega defender, como o fez ontem, que deve ser definido um "critério claro" quanto às limitações dos direitos dos familiares de titulares de cargos políticos. O critério já é simples e claro: ética, dignidade e confiança.

Nem basta dizer que nos "outros governos também faziam". Não estamos no recreio a dizer que "o meu pai é mais forte que o teu" ou "quem o diz é quem o é".

O que deve acontecer é exatamente o contrário, corrigir erros e corrigir depressa. Porque se formos buscar maus exemplos passados para justificar maus exemplos presentes, todos devem ter motivos mais do que suficientes para se envergonharem.

*DIRETOR-ADJUNTO