Opinião

Rendidos à Black Friday

Rendidos à Black Friday

Alegre-se, hoje é a sexta-feira negra. Aquela sexta-feira que representa quase o fim do massacre comercial, a roçar o verdadeiro spam, a que fomos sujeitos nestes últimos dias. É que antes da Black Friday, tivemos a Black Week e as Black Hours. Uma canseira que só vai dar tréguas (não desanime) na Ciber Monday. E, finalmente, no último sábado deste mês temos direito a descansar com o Buy Nothing Day.

Parece que esta fúria consumista é coisa moderna por cá, mas se trocarmos os smartphones e e as smart TV por arroz e massa, eis que recuamos até 1 maio de 2012, dia em que o Pingo Doce deu 50% de desconto aos clientes que gastassem mais de 100 euros de compras. Face à confusão gerada, que incluiu desacatos entre pessoas, seguiram-se verdadeiras discussões políticas. A Esquerda ergueu megafones e apontou o dedo ao capitalismo da Jerónimo Martins e a toda a sua "reprovável" política agressiva de vendas, condenando a classe empresarial que se aproveitava do povo.

É por isso estranho que a fúria consumista passe completamente ao lado dos mesmos que se revoltaram em 2012, mesmo que ontem tenhamos assistido a um verdadeiro arrastão de clientes numa loja de Matosinhos. A não ser que também já se tenham rendido aos descontos loucos desta "tradição" capitalista.

Hoje também seria o dia de apontar o dedo a todos os que aderem à Black Friday, vendedores e clientes, até porque a sexta-feira das pechinchas já chegou à Banca, ao setor farmacêutico e ao ramo dos seguros.

O princípio das duas ações é exatamente o mesmo, mas foi muito mais fácil e eficaz atacar o Pingo Doce e a Jerónimo Martins do que os coitadinhos das grandes multinacionais de retalho e todos os outros que na Black Friday fazem exatamente o mesmo que fez o Pingo Doce.

Black Doce ou Pingo Friday. É tudo o mesmo.

* DIRETOR-ADJUNTO