Opinião

Um espelho desigual

Os poderes e os privilégios, os favores e as cunhas, o compadrio e o "chico-espertismo" têm aumentando o fosso entre ricos e pobres, a descrença dos portugueses e as desigualdades no país.

O grande desafio que os partidos políticos, clássicos e novos, têm pela frente é combater esta irmandade de espertos, onde vale quase tudo.

E a abstenção nas últimas eleições europeias não resulta apenas da indiferença da parte dos governados. É também fruto de um país que teima em alimentar o centralismo, minimiza e penaliza as zonas menos populosas do país e insiste na cultura dos salários baixos, de transportes públicos escassos, velhos e mal distribuídos.

Quando direitos e deveres não têm o mesmo peso numa Justiça que distingue endinheirados e remediados, quando se classifica uma classe profissional como a nata da sociedade, equiparando os seus salários ao do primeiro-ministro, quando não sabemos em quem devemos confiar as nossas poupanças, quando as famílias não têm a mesma igualdade de oportunidades no ensino, na saúde e na habitação, é difícil falar de um país equilibrado.

Enquanto alguns continuarem a ser os "donos disto tudo" e outros a ser parados na via pública, por um chefe de um departamento do Fisco, para pagar dívidas de 150 euros, ninguém terá legitimidade para falar de igualdade.

Portugal já se viu várias vezes ao espelho. Com o sacrifício da maioria, "apertou o cinto" e demonstrou sabedoria para lidar com adversidade. Superou-se. É um país empreendedor, que aposta no desenvolvimento tecnológico e científico, que luta pelos direitos dos animais, pela igualdade de género e pelo clima.

Mas a única verdade que nos tornará mais iguais é o voto e este só será conquistado se a classe política descobrir outro rumo, encontrar novos caminhos para se aproximar de todos nós. É o que esperamos ouvir hoje na conferência sobre o futuro do país, que assinala, no Porto, os 131 anos do "Jornal de Notícias".

Diretor-adjunto